Desafios e perspetivas da agricultura em África

Mais de 50 líderes africanos, entre chefes de Estado e de Governo, estiveram em Washington para a cimeira EUA-África. Por detrás, a ideia de um "novo capítulo da história das relações entre americanos e africanos", sugerida pelo Presidente Barack Obama. O evento histórico ocorreu num momento em que África enfrenta inúmeros desafios: pobreza, fome, epidemias, corrupção, violação dos direitos humanos, conflitos armados e sangrentos.

Despertou atenção o tom dos discursos sobre parcerias, comércio e novas oportunidades de negócio, nas mais diversas áreas. Isto é, apesar de todos os problemas que África enfrenta, o continente tem recursos, potencialidades e oportunidades para oferecer e, acima de tudo, vontade de o fazer. Acrescenta-se o acelerado crescimento económico e demográfico que projeta e perspetiva para o continente uma participação mais efetiva e justa no mercado global.

Debateram-se assuntos, vontades e prioridades. Na generalidade muito louváveis. O combate à pobreza mereceu destaque, por arrastar consigo uma teia de outros males e problemas, e por condicionar qualquer ideia, esforço ou sonho. Ela gera a anarquia e alimenta o espírito do "salve-se quem puder", condiciona o futuro e a esperança dos mais pobres e catalisa os conflitos e o oportunismo político.

De facto, a pobreza em África está à espreita em todos os quadrantes geográficos, mas é predominante rural: cerca de dois terços dos pobres em África vivem no meio rural. Como tal, qualquer estratégia de combate à pobreza que se pretenda relevante passa necessariamente pelo estímulo do crescimento no campo.

O continente é rico em terras férteis, água e recursos humanos. Não se justifica que cerca de 250 milhões de africanos (um quarto da sua população) passem fome, num continente em que 70% da população se dedica à produção de alimentos. Além disso, 70% das pessoas vivem da agricultura; sendo as mulheres responsáveis por 60-80% da comida produzida e comercializada.

A agricultura pode, assim, funcionar como motor e canalizador de uma nova era de crescimento e partilha de riqueza. Para isso, é importante estancar a erosão de competitividade que enfraquece sistematicamente a posição de África no mercado mundial de alimentos. Há 30 anos a África exportava cereais, açúcar, feijão, cacau, café, arroz, milho, fruta, castanha de caju, sisal, algodão, chá, copra, etc. Hoje a África importa cereais, peixe, fruta, produtos lácteos, soja e carne. Razões externas como o dumping, a globalização, o protecionismo, podem ter contribuído para desequilibrar a balança. Mas há razões internas a observar: ausência de uma visão estratégica, falta de infraestruturas, falta de políticas públicas de acesso aos recursos naturais (terra e água), tecnologias, mercados e crédito.

Para além das muitas e válidas contribuições apresentadas e debatidas em Washington, é importante materializar os ideais da NEPAD (Nova Parceria para o Desenvolvimento da África) e CAADP (Programa Integrado para o Desenvolvimento da Agricultura em África) que oferecem os pilares para um desenvolvimento agrícola sustentável, abrem portas para a cooperação e a colaboração efetivas entre pessoas, comunidades e povos, e propõem o ambiente institucional apropriado para o desenvolvimento da agricultura familiar.

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