Dérbi da grandeza e da igualdade

Escrever sobre o dérbi é escrever sobre o mais excitante, desejado e mediático desafio desportivo, sobretudo no caso vertente do futebol, sem quaisquer reservas a grande modalidade das massas. Escrever sobre o dérbi, entre nós, é escrever muito acerca da portugalidade, dos seus sentimentos, das suas preferências, das suas opções. Daquilo que recordamos e ansiamos neste que é muito, mas mesmo muito, um país de bola, um país da bola.

Tive o grato privilégio de conhecer, viver e interpretar com muitas incidências vários dérbis. Como jogador, como dirigente, como adepto. Sempre de forma emocionada, sempre de forma apaixonada. Sempre com um suplemento de coração, sempre com um apelo à razão. Não há, em Portugal, cartaz com a grandeza de um Benfica-Sporting. Trata-se de um dérbi com histórico já secular, que é e será sempre a mais bela, a mais fogosa expressão do futebol doméstico.

Enquanto as duas cores rivais esgrimem forças, qualquer que seja o cenário, qualquer que seja a competição, é a igualdade que vence. O pobre é menos pobre, o rico é menos rico. O inteligente é menos inteligente, o limitado é menos limitado. O feliz é menos feliz, o infeliz é menos infeliz. Todos naquela hora e meia sedutora parecem viver em regime de paridade. As diferenças, se as houver (e há quase sempre), manifestam-se no teatro das operações e, concluída a função, na alegria ou na tristeza que possam conferir, existindo, quase fatalmente, uma atmosfera de imprevisibilidade, algo que avoluma o encanto, o prazer, o clímax do dérbi.

Lembro-me de todos em que participei, em especial os que me levaram à comemoração vitoriosa. A minha tendência para a partilha, num universo tão vasto, conduz-me à lembrança de um Benfica-Sporting, corria o ano de 1972 numa Luz com a luz de 80 mil almas rendidas à excelência do espetáculo. Antes do pontapé inicial, o despique era o mote dos convívios. Nas ruas, nas tascas, nos cafés, nos restaurantes, nos piqueniques familiares, nos transportes, em múltiplas situações, nessa expressão da cultura e da vontade popular.

Eusébio, o nosso querido Eusébio. Era o homem-golo. Damas, o nosso querido Damas, era o homem não golo. Dois gigantes de duas enormes formações, dois grandes amigos, ainda que nessa tarde adversários. E uma só bola? Claro que sim. Obediente a quem mais e melhor mimo lhe desse, a defender ou a atacar. Eusébio apontou quatro golos. Damas defendeu, pelo menos, outros tantos. Eusébio mereceu a coroação, Damas jamais mereceu a crucificação.

Um dérbi também pode ser assim. Esse foi assim. Foi tanto assim que eu respondo sim e não assim-assim, quando me questionam sobre o mais empolgante em que participei. No final, muito vermelho para pouco verde. Mas, lá dentro, nas cabinas mesmo, uma nota bonita de fair play, desde logo interpretada pelo Eusébio e pelo Damas. Não sabem? São raras e reprováveis exceções aquelas em que os intervenientes não se respeitam. Respeitam-se e felicitam-se. Lá fora, até pode haver indesejados tumultos. Nas horas imediatas, contendas verbais entre dirigentes. Mas o dérbi vence sempre. Seguramente. E de goleada. Pela emoção inusitada que permite desfrutar.

Antigo jogador e capitão do Benfica

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