Carta aberta a meu amigo Avito

O Filipe acaba de me dar a triste notícia com voz embargada e plangente: o nosso Avito é uma saudade. Partiu esta madrugada.

Quando lhe telefonei há dois dias para saber do Avito, proferindo o seu testemunho enquanto médico, avisou-me a chorar que o seu estado de saúde era extremamente grave. Na sua douta opinião, só uma intervenção divina o poderia salvar.

Ao manifestar a minha esperança na possibilidade de um desfecho favorável, como profundamente crente que é, o meu amigo Filipe Monteiro contrapôs a minha expectativa com o único argumento que sempre nos resta quando, em última instância, tudo parece estar perdido: a fé em Deus.

Olhei para o meu interior para descobrir Deus dentro de mim.

Todos sabemos que quem nasce também morre, pois ninguém é eterno, mas quando a morte faz gala em actuar de forma traiçoeira, e até é capaz de se esconder por detrás de uma pequeníssima partícula, invisível a olho nu, readaptando-se e procurando sobreviver, então damos conta como todas as nossas sofisticadas armas para enfrentá-la se tornam insignificantes.

Perante a sua actuação resiliente e silenciosa, ao estar apostada em querer vencer a todo o custo, sem se importar com a dor e a desgraça que semeia ao longo do seu trajecto, constatamos como são ténues os progressos tecnológicos e científicos da humanidade.

Desde dezasseis de Março do ano transacto que temos lido e ouvido, nos órgãos da comunicação social, de forma contínua e exasperante, a referência às mortes causadas por Covid-19 em Portugal.

Em geral, os organismos oficiais avançam comnúmeros sem nomes que soam a repercussões longínquas, mesmo quando a sua quantidade galopa de forma alarmante. Na reacção espontânea que manifestamos, quase sempre acabamos por lamentar o fim desses desventurados com palavras ou frases contristadas, porque toda a vida é preciosa, em especial, para os entes mais próximos. Mas quando o falecido tem um nome, deixa logo de fazer parte da estatística e se, porventura, essa pessoa nos é demasiado querida, atinge-nos como um punhal fulminante e penetra no nosso âmago fazendo jorrar jactos implacáveis de dor angustiante.

Conheci o Avito Carlos Ferreira e Sousa desde os bancos do Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, em Pangim, capital da nossa saudosa terra natal, Goa. Enquanto miúdos frequentávamos a praia de Caranzalém, onde ele animava o grupo de amigos cantando, enquanto o seu irmão Buiu, Mário Ferreira, o acompanhava fazendo vibrar os sons melodiosos da sua viola.

Na minha incapacidade de distinguir talentos, confesso que nessa altura, jamais me apercebi que aquela voz era única, um precioso dom que a natureza lhe concedera para deleite dos ouvintes.

Como posteriormente morei em Betim e ele em Porvorim, era no Ferry que cultivávamos a nossa amizade, durante a travessia do rio Mandovi caminhando, às vezes, juntos e em amena cavaqueira até ao Liceu.

Após 18 de Dezembro de 1961, não deixamos Goa na mesma altura, mas encontrámo-nos em Carachi e juntos embarcámos para Lisboa, no navio Índia. Ele, o seu pai, Carlos Ferreira, exímio violinista, e o seu irmão, Mário, foram os principais animadores dos serões da viagem.

De Lisboa, enquanto fui mobilizado para prestar o serviço militar em Angola, Avito foi parar a Timor, mas quis a fortuna que alguns anos depois fôssemos colegas na Repartição das Finanças, do 2ºBairro Fiscal, em Lourenço Marques, altura em que me casei.

Ao escrever este texto, em cada letra que dedilho esgravato o chão da minha memória e visualizo, perfeitamente, neste preciso momento, a actuação do Avito, no dia do aniversário da minha mulher, Ana Inês, munido da sua viola e acompanhado do nosso amigo comum, José Manuel Fonseca, postado junto da varanda da nossa casa e cantar os parabéns e outras canções para a minha mulher.

Após a revolução de 1974, em Portugal, com profundas repercussões no mundo português e os consequentes novos rumos que a vida foi obrigada a traçar, reencontrámo-nos em Lisboa.

Como Goa continuava a vibrar no seu coração, o Avito participou activa e empenhadamente na fundação da Casa de Goa e, posteriormente, do Suryá.

Foi o primeiro presidente do Conselho Fiscal da Casa de Goa e também fez parte dos seus corpos directivos. São inumeráveis e diversificados os serviços por ele prestados, sobretudo, à Casa de Goa, com especial relevância para a organização e condução de eventos, tanto de Carnaval como da festa da passagem do Ano, assim como na realização da tradicional sardinhada. Foi ele quem instituiu a menina dos seus olhos: o baile de Rosas.

O Avito cantava, dançava e animava as pessoas, tanto no Suryá como no Ekwat. Era um homem generoso, sempre pronto a colaborar a favor dos mais necessitados, da Igreja católica e dos mais idosos, com dádivas generosas e trabalho empenhado. Não era contador de anedotas, mas praticava uma ironia fina. Fazia perguntas certas no momento apropriado, com ar sério e rosto espantando, levando-nos invariavelmente a sorrir. Um dia, por ter justificado o meu ligeiro atraso por causa do transporte, perguntou-me com os olhos esbugalhados:

- O quê? De ontem para hoje, mudaram a estação do metro de Roma?

Apesar dos seus vários predicados e embora também tocasse viola e ghumot (instrumento de percussão, membranofone, muito típico e popular de Goa), onde o Avito mais se distinguiu foi no canto.

Nos dois cd"s do Suryá, Saudade de Goa e Reviver Goa, o Avito foi um dos principais solistas. Se escutá-lo a cantar Can"t Help Falling In Love, de Elvis Presley, era estar em presença de uma voz com toque divinal, ouvir o solo do Avito no Poiló Pauss (prece por chuva) era sentirmo-nos abençoados pela chuva das monções.

Caro amigo Avito, são onze horas do dia 24 de Janeiro de 2021. Deves estar a ser sepultado neste preciso momento. A tua mulher, a nossa querida Paulina, os teus filhos, Carlos e Pedro, os teus netos, Pedrinho, André, Diogo e Leonor, as tuas noras, Patrícia e Rita, sentirão sempre o teu amor. Mas tu não partes, vais continuar a pairar entre nós e a chama irradiada pela tua voz há-de iluminar-nos para sempre.

Historiador

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