Cada vez mais pequenos e periféricos

Mark Twain, pseudónimo de Samuel Clemens, escreveu no século XIX que "uma mentira pode dar a volta ao mundo enquanto a verdade ainda calça os sapatos". Clemens morreu em 1910, sem conhecer a internet, o e-mail ou as redes sociais, caso contrário teria escrito o mesmo com proporções garantidamente bem distintas daquelas que nos deixou.

Pelo que fui e pelo que sou, funcionário antes, adepto e sócio agora, sou parte interessada no que a seguir passo a escrever, como interessados são, embora com posições diferentes, todos aqueles que do outro lado da barricada se reclamam justiceiros e monopolistas da virtude.

A primeira instância da justiça passou a ser feita na comunicação social, culpa do voyeurismo dos nossos dias, da vertigem dos factos e, naturalmente, do tempo da decisão judicial. Na fronteira cada vez mais ténue entre a justiça e a comunicação, a presunção de inocência perde sempre. E é com base nesta fraqueza dos nossos dias que assenta a estratégia do FC Porto no caso dos e-mails.

De facto, não interessa a verdade, mas a perceção da mesma. Não interessa o apuramento rigoroso dos factos pelas entidades competentes, mas, sim, a gestão dos media, a divulgação total ou parcelar, sem contexto ou enquadramento, de correspondência que já foi privada.

O que na verdade interessa é condicionar os agentes desportivos (o último jogo do FC Porto é o melhor exemplo disso), manchar a reputação de uma marca, denegrir pessoal e profissionalmente pessoas cuja presunção de inocência se vai perdendo numa estratégia de poder sem decência e sem limites.

Tudo isto, convém lembrar, tem na base um crime e conta com o aval da justiça portuguesa, para quem, por decisão de um dos seus agentes, a "justiça" pode continuar a ser feita nos media.

Em Espanha, num caso muito semelhante em que um conhecido escritório de advogados foi hackeado, um tribunal demorou uma semana a impor duras sanções a quem, nos media, se aproveitasse desse crime.

Os e-mails deixaram de ser apenas um instrumento de trabalho, são um veículo privilegiado de partilha em que, muitas vezes, nos excedemos, desabafamos, celebramos ou nos lamentamos de decisões ou momentos do nosso dia-a-dia. Devem esses e-mails ser usados numa lógica de confronto e revanche? Não creio, nem penso que isso aproveite quem o faça.

No meio desta frenética batalha em que o que menos interessa é a salvaguarda da credibilidade do futebol português, convém respeitar certos limites e, se esses forem ultrapassados, importa que a comunicação social saiba distinguir o que realmente tem interesse público e aquilo que apenas serve para amesquinhar.

Não está em causa qualquer ilícito, mas, sim, a ética e a privacidade a que cada um de nós deve ter direito, e tem, mesmo que esse direito nos seja negado por quem prevarica semanalmente e caucionado por quem tem precisamente o dever de o evitar.

Seria interessante perguntar ao juiz que indeferiu a providência cautelar interposta pelo SL Benfica se gostaria de ver os seus e-mails publicitados semanalmente, sem filtro e sem contexto. Seguramente que não, mas, negando qualquer conflito de concorrência e tornando abstrato um conceito bem concreto como é o da privacidade, este juiz consentiu na continuação de uma prática ilegal e, pior do que tudo, imoral.

O FC Porto tem todo o direito de pedir que se investigue o que acha que é ilícito, mas não tem o direito de persistir num crime que, mais cedo ou mais tarde, será reconhecido.

O futebol português precisa de rivalidade entre os seus principais clubes, mas dispensa a hostilidade e o ódio com que semanalmente se vai alimentando a imprensa e os adeptos. Essa é uma estratégia que nos prejudica a todos, mesmo que alguns achem o contrário.

Persistindo na via do "quanto pior, melhor", estaremos condenados a ser cada vez mais pequenos e mais periféricos.

Uma nota final que quero aqui deixar: saí do Benfica por desgaste e por cansaço, orgulhoso de ter podido partilhar oito anos com uma equipa de excelentes profissionais. Um desabafo tirado do contexto não altera nada nem muda a amizade e o respeito que prevalecem mais de um ano e meio depois.

Ao presidente Luís Filipe Vieira todos os benfiquistas devem a radical transformação que o clube sofreu nestes últimos 14 anos. É bom ninguém se esquecer disso! Em relação a Domingos Soares Oliveira, foi e continua a ser peça fundamental na estrutura do clube, e os seus méritos não podem ser questionados. A terminar, gostaria de individualizar uma terceira pessoa: Paulo Gonçalves, meu amigo e um profissional dedicado, vítima de um ataque injusto numa fase difícil da sua vida. A ele, a minha palavra de admiração e gratidão.

Ex-diretor de comunicação do Benfica

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