Ainda teremos razões para ser otimistas?

Gostaria de iniciar este texto com um tema mais ameno. Mas o que fazer, se o ano de 2020 começa com presságios inquietantes e perturbadores? Conforme os indícios inaugurais do novo ano, parece que a mística dos anos capicua não passa disso mesmo: mística. Crendice. Razão ingénua e talvez inútil.

Outros autores, neste e em outros jornais de todo o mundo, expressaram o mesmo ou idêntico mal estar durante os primeiros dias do ano. A maka (quando é que esta palavra originariamente angolana será registada no vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, como tantas outras já o foram, há séculos?) não são os factos ou ocorrências registadas nos últimos anos, do aquecimento global às guerras persistentes, ao terrorismo e à escolha democrática de líderes autoritários, para dizer o mínimo (coisa que, é bom recordar, já tinha acontecido com Hitler). É, principalmente, e para resumir, a falta de perspetivas e de lideranças à altura dos desafios do século XXI.

Viriato Soromenho-Marques, no seu texto publicado aqui no passado dia 18 de Janeiro deste ano, queixou-se, precisamente, da atual ausência de "visões de mundo", isto é, reflexões globais e estruturadas (ideológicas, acrescentaria eu) acerca das causas e dos meios para superar os complexos desafios contemporâneos. Para ele, isso deve-se ao desaparecimento dos últimos grandes pensadores europeus.

Não posso deixar de observar que essa aparente incapacidade de pensar globalmente os desafios do nosso tempo e, sobretudo, o(s) modo(s) de enfrentá-los como que deita por terra as expectativas geradas a partir de meado dos anos 80 do século passado acerca das possibilidades da comunicação - simultaneamente entendida como desenvolvimento das respetivas tecnologias e como informação - funcionar como um meio propiciador da liberação e, sobretudo, da convivência e comunhão da humanidade. Ao invés disso, parece que regressamos, não à Idade Média, como previa Eco, mas, pior do que isso, ao mundo tribal.

Para o brasileiro Muniz Sodré, considerado um dos maiores teóricos da comunicação do mundo - e que, por isso, deveria ser mais conhecido em todo o espaço de língua portuguesa -, assistimos, neste momento em que o improvável é cada vez mais possível, à emergência daquilo a que ele chama a sociedade incivil, isto é, "um ordenamento humano regido por tecnologias de comunicação e solidário à desestabilização das formas consensuais de representação do mundo".

Ele não tem dúvidas: - "Em meio à notável expansão tecnológica dos dispositivos, é crescente o défice humano de compreensão mútua". Assim, enquanto a liberdade de expressão, um dos conceitos essenciais da democracia, se converte cada vez mais numa espécie de "psitacismo" e de fala robótica, outro, o civilismo (negociação pública de diferenças, cooperação, solidariedade, discernimento crítico e empatia), praticamente desaparece, sendo substituído pelo vácuo institucional.

Na verdade, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação esconde, sob a sua aura promissora e redentora, uma realidade que parece concretizar a profecia de G. Orwell: o agravamento da hegemonia do capitalismo financeiro e a instauração da cultura algorítmica e do biopoder tecnológico.

Acontece que, devido à desconstrução dos laços representativos entre povo e Estado, a reação (ou ajustamento?) a essa nova ordem ainda em constituição está a acontecer, como se pode ver com o Brexit, a eleição de Trump, a ascensão de Bolsonaro e o fenómeno dos "coletes amarelos" em França, para citar apenas estes exemplos, de maneira fragmentária, disruptiva e depressiva, em que o ódio joga um papel cada vez mais central.

Temos, pois, poucas razões para ser otimistas.

Jornalista e escritor angolano; Diretor da revista ÁFRICA 21

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