Ainda sobre Hagia Sophia, simbólica e efeitos colaterais

Antes da existência dos panfletos a que hoje todos chamamos "flyers", os Romanos erigiam colunas pelas terras conquistadas, as quais contavam em baixo relevo a(s) façanha(s) da(s) conquista(s), tal e qual os livros do Tio Patinhas, mas sem quadradinhos. A mais famosa e mais conhecida será a Coluna de Trajano, no centro de Roma, comemorando as vitórias das campanhas militares sobre os Dácios. Pode-se considerar um excelente exemplo da arte e da arquitectura ao serviço da política.

As grandes igrejas, catedrais, mesquitas e outros templos religiosos, pela sua imponência e beleza, sempre tiveram o objectivo de curvar a criatura perante o Criador, remetendo-a para o seu reduto de comum mortal, face à grandeza da representação física, concreta e palpável do infinito e do absoluto. Nesse sentido, estas grandes construções sempre foram colossais panfletos prosélitos de pedra, que faziam mirrar de medo o analfabeto camponês que a frequentava. No caso do cristianismo, todos temos a imagem do pé-rapado a tirar o chapéu à entrada da igreja em sinal de respeito e a ajoelhar-se humildemente para pedir perdão e ajuda. A construção complementa a mensagem religiosa que anula o indivíduo, já que o coloca de joelhos completamente vulnerável e à mercê do Criador.

A Hagia Sophia, do grego "Sagrada Sabedoria", é isto e muito mais, já que se tornou numa "carta de poker" na manga de Ataturk quando a transformou de Mesquita em Igreja-Museu secular com 4 minaretes na "cavalgada laica". Um híbrido símbolo da recente e "europeia Turquia". Erdogan também sacou este Ás da manga, quando agora lhe deu de novo função religiosa, remetendo-a ao papel de panfleto prosélito na "cavalgada islamizante". Em ambos os casos, este património teve um fim político e com objectivos opostos. Se Ataturk quis aproximar a recém República da moderna e iluminada Europa, Erdogan carimbou um virar de costas à União Europeia, há muito esperado.

A "Erdoturquiagan" já não é mais aquilo que o seu ex-Primeiro-Ministro Ahmet Davutoglu (2014/16) disse quando questionado sobre as futuras opções diplomáticas da Turquia. De forma sucinta, colocou as mãos abertas e juntas no polegar, em forma de águia e disse, "a posição da Turquia será sempre a posição de Janus, com um olhar para Oriente e outro para Ocidente". Já não é e isso e deixou de o ser por um acto administrativo.

Outra camada simbólica definidora desta mudança, foi muito bem ilustrada pelo Académico Miguel Castelo Branco, num "post" na sua página Facebook e que diz o seguinte:

"Na cerimónia de reabertura de Hagia Sophia como lugar de orações para muçulmanos, o Ministro turco dos Cultos,

Professor Ali Erbaş, proferiu um sermão tendo nas mãos uma espada. Muita atenção foi dada ao gesto que no Islão carrega forte valor simbólico. Se a mão direita repousa sobre o punho, tal significa que a espada vai ser usada; ao invés, se cabe à mão esquerda agarrar a espada, o gesto não é belicoso, mas um sinal de confiança acenado aos amigos. Erbas terá estudado prudentemente a sequência, pois ora agarrou o punho com a esquerda, ora com a direita, permitindo várias interpretações. Por um lado, ao repousar a mão esquerda, terá querido transmitir a todos os muçulmanos um sinal de protecção [turca], lembrando os tempos do califado otomano em que todos os crentes (sunitas) estavam protegidos. Por outro, ao colocar a mão direita sobre a esquerda e, depois, ao descer do púlpito segurando a espada com a direita, terá deixado um forte sinal de que a Turquia já não é um Estado laico, mas está pronta para fazer a guerra contra qualquer inimigo do Islão."

A assinalar também que esta alteração de usufruto e fruição deste "edifício-panfleto", teve como consequência o levantar do precedente que agora "dá o direito" aos Emirados Árabes Unidos de reivindicarem o regresso da Mesquita de Córdova ao culto islâmico e, aos islamistas "domesticados" por Mohammed VI, que esta semana celebra 21 anos enquanto Rei de Marrocos, também começarem a exigir que a Igreja do Sagrado Coração de Casablanca seja transformada em Mesquita, à imagem da "Sagrada Sabedoria" de Istambul.

Politólogo/Arabista www.maghreb-machrek.pt

O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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