A lição urgente da Itália à Europa

A política italiana alerta para a mudança que a União Europeia (UE) necessita. O Ministério das Finanças é o mais poderoso nos governos europeus porque dele depende o respeito pelas lógicas comunitárias e dos mercados. É, por isso, que quase três meses após as legislativas, o presidente Sergio Mattarella tomou a decisão controversa de vetar a nomeação de Paolo Savona como ministro das Finanças do governo "populista". A consequente renúncia de Giuseppe Conte, primeiro-ministro designado, e indicado pela Liga e pelo Movimento 5 Estrelas (M5S), levou Mattarella a convocar eleições antecipadas. Conceituado economista, de 82 anos, Savona denuncia a centralização do poder na UE e propõe uma reconfiguração das relações económicas e políticas. Contudo, o impacto negativo dos mercados e a falta de democracia económica na UE são cada vez mais denunciados por muitos políticos, inclusive das forças partidárias que contribuíram para definir as instituições europeias. As sondagens já indiciam um reforço consistente da Liga, que chegaria perto de igualar os votos do M5S se as eleições fossem hoje. O avanço de um partido de extrema-direita denota que a imposição de influências políticas externas provoca choques políticos que, longe de reforçar as instituições comunitárias, favorecem uma maior hostilidade. A Liga e o M5S teriam hoje uma consistente maioria (cerca de 57%) que poderia ainda ser reforçada com o discurso de vitimização e hostilidade aos "poderes fortes" que vetaram o seu governo. Não importa, portanto, quanto esforço é preciso para democratizar a UE, é urgente começar a realizar esta promessa. A mudança ainda pode ser gerida, revitalizando e renovando as formas democrática que conhecemos, mas se tardar pode deixar espaço a alterações bem mais traumáticas.

Investigador do CES da Universidade de Coimbra