A Tamazgha chora a morte de Dda Ahmed Adghirni

Ahmed Adghirni (22.06.47 - 19.10.20), decano da luta pelos direitos das populações Amazighs de Marrocos e restante "berbéria", entregou a Alma esta segunda-feira, após 73 anos de luta pelos direitos dos autóctones norte africanos, tendo lutado nos últimos 6 anos contra a Doença de Parkinson.

Nascido no seio dos Ayt Baâmran, que encabeçam uma confederação tribal do Sul do Souss (Sidi Ifni, a Sul de Agadir), considerada historicamente a última bolsa de resistência a ceder à presença colonial espanhola, Dda (O Sábio) Hmad, como mais carinhosamente era tratado, incorporou este legado de "muro de força" até ao último dia, com um funeral apressado para que o mesmo não se transformasse numa derradeira manifestação política anti-regime e em tempos de pandemia, tal era a sua importância das Canárias ao Suez.

Advogado, Escritor, Activista dos Direitos Humanos, Político, foi um dos fundadores do Congresso Mundial Amazigh, em 1995, instituição que defende os Direitos e a Identidade dos Povos Amazighs (vulgo berberes para o ocidental distraído) pelo Mundo afora eque não inclui apenas o Magrebe e o Sahel (grosso modo, a Tamazgha do título), mas também os curdos, um Povo cuja resistência exerce um fascínio sobre estes autóctones norte africanos.

Também no sentido da defesa e promoção da Identidade Amazigh, Dda Hmad funda em 2005 o PDA, o "Parti DémocrateAmazigh" (Marroquino), considerada a 1ª acção política moderna berbere, a qualvê o Sentença da sua ilegalização chegar pelo Tribunal em Abril de 2008, com a justificação de que não são aceites constitucionalmente Partidos Políticos de caracter etnocêntrico em Marrocos. Aliás, este é o grande e permanente desafio do Palácio, que luta contra potenciais separatismos, num reino dividido entre arabófonos e berberófonos.

Adghirni fica para a História de Marrocos como o Activista até agora descrito mas, sobretudo e também, como O Advogado de presos políticos, cuja acção que povoa a memória colectivaamazigh marroquina se situa em 1994 na defesa dos 7 professores membros da Associação Tilelli (Liberdade) de Goulmima, que reivindicavam a oficialização da sua língua-mãe com o slogan "Não há Democracia sem o Tamazight", a Língua "Berbere".

Precisamente, a oficialização do Tamazight enquanto Língua Oficial do Reino, foi vitória que ainda viu em vida, consagrada na Nova Constituição de 2011, fruto das reivindicações da Primavera Árabe marroquina.

Termino com um apontamento curioso deste "romântico cívico da contestação", que também enquanto Tradutor e Linguista, traduziu para Tamazight a Obra-Prima de William Shakespeare, Romeu e Julieta.

"Att irhem Rebbi", que na sua língua-mãe significa Que Deus dê Paz à sua Alma!

Raúl M. Braga Pires

Politólogo/Arabista

www.maghreb-machrek.pt

O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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