Convidados

O Banco de Portugal está preso a uma história que tem de reconhecer para mudar

PremiumTem custado ao Banco de Portugal adaptar-se ao quadro institucional decorrente da criação do euro. A melhor prova disso é a fraca capacidade de intervir no ordenamento do sistema bancário nacional. As necessárias decisões acontecem quase sempre tarde, de forma pouco consistente e com escasso escrutínio público. Como se pode alterar esta situação, dentro dos limites impostos pelas regras da zona euro, em que os bancos centrais nacionais respondem sobretudo ao BCE? A resposta é difícil, mas ajuda compreender e reconhecer melhor o problema.

Pedro Lains

E uma moção de censura à oposição?

PremiumNos últimos três anos, o governo gozou de um privilégio raro em democracia: a ausência quase total de oposição. Primeiro foi Pedro Passos Coelho, que demorou a habituar-se à ideia de que já não era primeiro-ministro e decidiu comportar-se como se fosse um líder no exílio. Foram dois anos em que o principal partido da oposição gritou, esperneou e defendeu o indefensável, mesmo quando já tinha ficado sem discurso. E foi nas urnas que o país mostrou ao PSD quão errada estava a sua estratégia. Só aí é que o partido decidiu mudar de líder e de rumo.

Anselmo Crespo

O RAP e a diretora condenada ao nosso riso

Há uns anos, surpreendi-me com uma cena de Herman José. Pareceu-me comédia tipo Mister Bean ou Jerry Lewis, disparatada. Feita pelos melhores, como os citados, é um género superior - e Herman, com o menino Nelito, por exemplo, a escavacar o cenário, sabe também ir por aí. Ora, naquela noite, Herman apresentava uma distribuição de prémios televisivos, função que tornava demasiado perigoso o desvario. Daí a minha surpresa pelos pinotes e o atirar-se para o chão do humorista.

Ferreira Fernandes

Caxemira: questão não é Índia retaliar, mas sim com que fúria

O problema de Caxemira, cuja soberania é disputada por potências nucleares, começa pelo seu simbolismo, com o K inicial (em inglês) a ser a terceira letra do nome inventado para pátria dos muçulmanos da Índia ainda na era colonial britânica, esse Paquistão (Pakistan) ou "País dos Puros" nascido finalmente em 1947. Já para a União Indiana, a moderna Índia também independente desde 1947, Caxemira é a prova da diversidade, pois é o único estado que tem maioria muçulmana num país esmagadoramente hindu, mas orgulhoso de ser pátria de outras religiões, de sikhs a cristãos.

Leonídio Paulo Ferreira

Listas para tudo, Neruda para principiantes e bandas sonoras para a vida

Gosto de listas. Preciso delas para me organizar, para orientar o meu dia-a-dia, para me guiar entre o trabalho e a vida pessoal, seja para criar prioridades para a hora seguinte ou objetivos para a próxima década. Não gosto assim tanto delas como o Rob Gordon (John Cusack) em Alta Fidelidade, o clássico de Nick Hornby que Stephen Frears adaptou ao cinema - o homem até tinha uma lista para canções que gostaria que cantassem no seu funeral - mas gosto o suficiente para saber que, se tivermos uma boa lista de razões para fazermos isto ou aquilo, temos menos razões para não o fazer.

Paulo Farinha

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

Henrique Burnay

Listas para tudo, Neruda para principiantes e bandas sonoras para a vida

Gosto de listas. Preciso delas para me organizar, para orientar o meu dia-a-dia, para me guiar entre o trabalho e a vida pessoal, seja para criar prioridades para a hora seguinte ou objetivos para a próxima década. Não gosto assim tanto delas como o Rob Gordon (John Cusack) em Alta Fidelidade, o clássico de Nick Hornby que Stephen Frears adaptou ao cinema - o homem até tinha uma lista para canções que gostaria de que cantassem no seu funeral - mas gosto o suficiente para saber que, se tivermos uma boa lista de razões para fazermos isto ou aquilo, temos menos razões para não o fazer.

Paulo Farinha

Nos limites da condição humana

Faltam cinco dias. Cinco dias até chegarmos ao 14 de fevereiro dos sorrisos e dos presentes, das surpresas e dos embrulhos, dos bilhetes e dos jantares. Cinco dias até ao fim do balão de oxigénio que o comércio recebe nesta altura, com vendas de roupa, perfumes, telemóveis, bijuteria, lingerie, bonecos de peluche e quinquilharia decorativa com mensagens de amor. Cinco dias até deixarmos de ter tanta publicidade a tudo isto. Cinco dias até deixarmos novamente para trás a felicidade com data marcada.

Paulo Farinha

Islamofobia e cristianofobia

Premium1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Anselmo Borges

Uma ameaça à cidadania

PremiumA conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.

Adriano Moreira

Deitar fora a tralha que não interessa

"Não tenho nada em minha casa que não possa transportar no meu carro." Devíamos estar em 2003 ou 2004, conversávamos enquanto íamos andando ao longo de uma rua com poucos automóveis e árvores altas despidas de folhas, ladeada por prédios bonitos com casas de grandes janelas, e a frase da minha amiga mexicana, que eu conhecia há pouco tempo, pareceu-me apenas divertida. Falávamos sobre o tamanho das salas que conseguíamos ver para lá dos vidros das janelas, de como eram estupidamente grandes, quando ela disse aquilo. "Vou mudar de casa em breve. Para uma mais pequena." E, para facilitar a mudança, Selene ia novamente aplicar uma regra que já tinha há uns anos: tudo o que lhe entrava em casa e fazia parte do quotidiano dela tinha de caber no carro - e não, não era uma Ford Transit nem uma Toyota Hiace.

Paulo Farinha

Uma estratégia comum para os povos de língua portuguesa

Quando me convidaram para tomar a palavra neste encontro partidário (Convenção Nacional do PSD), não hesitei. O tema que sugeri respeita a todos nós, independentemente do posicionamento e eventual filiação partidária. Acresce que sou secretário-geral de uma instituição, a UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e é nesta qualidade que intervenho, tendo escolhido o tema "Para uma estratégia do desígnio comum dos povos e países de língua oficial portuguesa".

Vítor Ramalho

As miúdas têm notas melhores. E depois, o que acontece?

Nos rankings das escolas há um número que chama especialmente a atenção: as raparigas são melhores do que os rapazes em 13 das 16 disciplinas avaliadas. Ou seja, não há nenhum problema com as raparigas. O que é um alívio - porque a avaliar pelo percurso de vida das mulheres portuguesas, poder-se-ia pensar que sim, elas têm um problema. Apenas 7% atingem lugares de topo, executivos. Apenas 12% estão em conselhos de administração de empresas cotadas em bolsa - o número cresce para uns míseros 14% em empresas do PSI20. Apenas 7,5% das presidências de câmara são mulheres.

Catarina Carvalho

Quando não podemos usar o argumento das trincheiras

PremiumA discussão pública das questões fraturantes (uso a expressão por comodidade; noutra oportunidade explicarei porque me parece equívoca) tende não só a ser apresentada como uma questão de progresso, como se de um lado estivesse o futuro e do outro o passado, mas também como uma questão de civilização, de ética, como se de um lado estivesse a razão e do outro a degenerescência, de tal forma que elas são analisadas quase em pacote, como se fosse inevitável ser a favor ou contra todas de uma vez. Nesse sentido, na discussão pública, elas aparecem como questões de fácil tomada de posição, por mais complexo que seja o assunto: em questões éticas, civilizacionais, quem pode ter dúvidas? Os termos dessa discussão vão ao ponto de se fazer juízos de valor sobre quem está do outro lado, ou sobre as pessoas com quem nos damos: como pode alguém dar-se com pessoas que não defendem aquilo, ou que estão contra isto? Isto vale para os dois lados e eu sou testemunha delas em várias ocasiões.

Adolfo Mesquita Nunes

O calote de 38 milhões de euros

Premium A ADSE é o maior subsistema complementar de saúde em Portugal e, com esse peso, tem negociado com os privados tabelas de pagamento de serviços. Há já alguns anos que a ADSE é totalmente paga pelos trabalhadores, os mesmos que através dos seus descontos também financiam o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Em 2015 e 2016, os grupos privados decidiram não cumprir as tabelas negociadas e cobraram mais 38 milhões de euros em relação ao negociado e a ADSE exigiu que os prestadores convencionados regularizassem os pagamentos. O caso avançou a ponto de a ADSE pedir um parecer à Procuradoria-Geral da República, que lhe deu razão. Em circunstâncias normais, os privados pagariam o calote e não se falava mais do assunto, sendo certo que o assunto era já grave o suficiente para que dele se falasse. Mas não foi isso que aconteceu, os privados uniram-se em cartel para ameaçar a ADSE, suspender os acordos vigentes e tentar convencer a opinião pública de que têm o direito de impor a tabela de preços que bem entendem fugindo aos compromissos negociados previamente. Grupo Mello e CUF, à cabeça, lançaram-se nesta missiva para que, mais uma vez, prevaleça o negócio à frente da saúde.

Marisa Matias