A política, os políticos e os cidadãos

Já vai sendo um hábito dizer-se que os regimes democráticos estão em crise. Surgem por todo lado exemplos disso mesmo, desde a inexistência de movimentos de cidadania disponíveis para exigir mais e melhor política e mais e melhores políticos até à displicência com que os cidadãos encaram os comportamentos - acções ou omissões - dos responsáveis políticos.

Dá que pensar! Se recuarmos no tempo e na história vem-nos à memória as palavras de Platão (428-347 A.C.) quando afirmava que "o preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior".

Em Portugal, este fenómeno (ou o que lhe queiramos chamar) é sentido e percebido todos os dias e em quase todas as circunstâncias. Vejamos: o Governo anuncia boas perspectivas de recuperação, implicitamente considera que podem surgir condições para uma baixa de impostos, "aceita" que o défice pode ir até aos 10%, mas logo adianta que para efeitos externos o que vai contar são 4%, o valor da nossa dívida é aparentemente incontrolável mas, apesar de tudo, está "controlada", as decisões do Tribunal Constitucional vão certamente ocasionar a necessidade de novas e mais difíceis medidas de correcção de contas, mas, de seguida, o Orçamento Rectificativo parece não dar acolhimento a tais preocupações, a situação de algumas das instituições financeiras é adequada e está de acordo com as exigências comunitárias e nacionais, nomeadamente quanto a liquidez, solvabilidade e modelo de governança. Mas não é bem assim, como se verificou pela necessidade de tomar medidas que passaram pela criação de um outro e diferente banco, separando os activos "bons" dos activos "maus" e injectando nesse mesmo banco um valor muito considerável de dinheiro publico, dizem-nos, que a título de empréstimo...

Do lado da oposição, nada podia ser pior do que o que está a suceder! O Partido Socialista envolveu-se num processo a que chama de "primárias", tendente a escolher não um líder (é o que dizem...) mas um candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições legislativas. Quem vai proceder a esta eleição não são apenas os militantes, que, apesar de tudo, são a componente humana, técnica e política que constitui os partidos políticos (e estes, segundo também se afirma com grande convicção, são a base da democracia) mas também os simpatizantes. Como decorre do que antes referi, sou contra "enxertos" seja qual for a sua natureza nos processos representativos. Dá sempre mau resultado! É o que me ensina a experiência!

Mas, enfim, aceitando, como não pode deixar de ser, as decisões soberanas tomadas pelo "dono da casa", no caso, os partidos políticos, esperava-se que o número de simpatizantes inscritos para tomar parte nesta decisão fosse significativo.

Não vou fazer comparações com outros países em que este modelo parece ser adoptado, até pela simples razão de me parecer que os pressupostos de que partem são diversos e diferentes, mas para sublinhar o número bastante diminuto dos inscritos a título de simpatizantes. Porque será? Pela minha parte, exactamente pelas mesmas razões de "indiferença" e de falta de motivação para a participação efectiva nas decisões que a todos dizem respeito. Seria de esperar que este processo suscitasse junto dos portugueses algumas esperanças de mudança. Mas não! Encaram-no como mais um passo em direcção a "nada". É, pelo menos, esta a minha sensibilidade. Não os levam a sério, "isto" nada tem a ver com as suas vidas e as suas dificuldades. Acham que se trata de mais um expediente, e não de "um conjunto de meios que permite alcançar os fins desejados", com B. Russell afirmava dever ser a política.

Lamento que assim seja, que assim se tenha vindo a tornar a nossa vida colectiva. Assumindo que a responsabilidade também é nossa (pela não participação efectiva), resta-me esperar que os políticos, todos eles, percebam que se lhes impõe trabalhar arduamente para procurar impedir que as consequências possam vir a ser as que Platão intemporalmente descrevia como sendo inevitáveis.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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