Pode a clubite tramar um hacker?

O hacker português é provavelmente uma história à portuguesa. Rapaz esperto, licenciado em História e especialista em informática, provavelmente coca-bichinhos, tudo indica, toupeira da internet, fã de futebol, terá descoberto que todos os estes interesses davam uma mistura explosiva, quando combinados. Pôs-se a investigar sites, e-mails de fundos de jogadores, de jogadores, de clubes de jogadores, de agentes de jogadores e de muitas entidades ligadas a esse estranho e grande mundo do futebol.

Fechado no seu quarto, Rui tornou-se poderoso. Em frente ao seu computador tornou-se um dos mais temidos adversários. Sem contacto com o mundo, não recebeu pressões sociais, não foi alvo, nem fonte, de sentimentos negativos. Fechado no seu quarto é mais fácil uma pessoa sentir-se um justiceiro.

Com os conhecimentos que tinha, o hacker historiador fez história. Chegou longe, descobriu segredos, perseguiu pistas sórdidas, destapou fugas ao fisco, negócios escuros, injustiças criadas pela riqueza que o futebol atrai e distribui - normalmente entre os seus. O resultado a que chegou foram mais de 70 milhões de documentos - todos guardados no seu computador, num quarto de uma casa de Budapeste, cidade onde tirara o Erasmus e onde ficara, por amor.

O resultado foi publicado no site Football Leaks, nome obviamente inspirado no guru libertário que fundou a noção de "fuga digital", Julian Assange dos WikiLeaks que ele, aliás, citava numa entrevista à Der Spiegel, sob anonimato: "A vida de um denunciante é problemática. Mas, como Edward Snowden, Chelsea Manning ou Julian Assange, acreditamos no que estamos a fazer e achamos que isto é uma forma importante de trazer as coisas à luz do dia."

A revista alemã Der Spiegel foi a Budapeste e trouxe os documentos e mais documentos, que acabou por partilhar com outros jornais do consórcio EIC, de investigação jornalística internacional - do qual o Expresso faz parte. Ao todo foram 3.4 terabytes de dados. Dados importantes que atingiram todo o futebol, de Platini a Mourinho, da FIFA à UEFA. Já para não falar de Cristiano Ronaldo, que era um herói sem mácula até aí.

Foram histórias que passaram sem grande escândalo em Portugal. Até que este hacker dos Football Leaks foi ligado ao caso os e-mails do Benfica - que já levaram a dois processos judiciais. Aí, sim, as coisas apertaram. Páginas e páginas em jornais, o escândalo no futebol, milhões de cliques. Foi de tal maneira que agora, quando Rui Pinto foi detido em Budapeste, as mentes nacionais associaram a detenção ao caso dos e-mails vazados. As teorias da conspiração puseram a circular que teria sido o Benfica a ter "mexido os cordelinhos".

Na verdade, ainda não é certo que Rui Pinto tenha sido o autor do roubo dos e-mails do Benfica. É até possível que seja - até porque as primeiras fugas de informação eram informações mais ou menos anódinas de transferências que não estavam ligadas a qualquer problema judicial. Apenas eram pornográficas nos números.

Rui Pinto está sempre a negar ter qualquer coisa a ver com os e-mails do Benfica ou a entrada na sociedade de advogados PLMJ. E diz, em abono de si próprio, que está preocupado com as "pessoas que verdadeiramente gostam de futebol, pagam por ele e têm o direito de saber como funciona na realidade". Seria bom que esses nobres princípios não tivessem ficado conspurcados - até eles -, afinal, pela clubite.

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