Estranho votar em Bolsonaro? E os vossos filhos aceitam as praxes?

As cidades universitárias portuguesas enchem-se por estes dias de tontos e aves sorumbáticas. De gente com olhar vítreo, talvez do álcool e do mais que lhes entaramela os sentidos, e de gente com olhar submisso e contente. São estudantes, dizem uns e outros. Hão de ser. Por enquanto são outra coisa qualquer, numa autoinfligida hierarquia de caloiros e veteranos, em que cada um sabe muito bem o seu lugar - como, aliás, conta bem a reportagem que publicamos hoje.

Ora, se há coisa por que vale a pena ser jovem é precisamente não saber bem qual é o seu lugar. É, aliás, pensar mesmo que o mundo é todo nosso - por ainda não ter tido a experiência a tolher-nos os atos, discursos, sonhos. Ter, por isso, a ilusão de poder mudá-lo, antes de perceber que, muitas vezes, temos de nos acomodar a ele. Ser estudante é o expoente disto, com tempo para aprender, gozar da sabedoria das sebentas e dos corredores, errar e voltar a errar, e aprender com os erros. Não por acaso muitas das revoltas contra o statu quo fizeram primeiro semente entre a juventude para depois se espalharem pelo resto da sociedade.

As atuais praxes académicas promovem o contrário disto. Na mais otimista das versões, a praxe é um ritual de integração. Na pior é uma humilhante forma de obediência. Em ambos os casos, submissão é palavra-chave. Submissão aos mais velhos que a própria praxe hierarquiza em mais importantes. Mas também às regras, ao sistema, a quem manda. E isto é válido para todas as praxes, sejam as benévolas de concursos de Miss e Mister Caloiro, sejam as fisicamente violentas - porque psicologicamente, lá está, são todas.

Neste ano foram poucos os escândalos que trouxeram as praxes para as notícias - não tem havido denúncias nem polémicas - e talvez por isso tenhamos tendência a esquecê-las. Mas elas lá estão, mais abrangentes, cada vez mais banais, como uma torrente que já não é uma tendência, moda, mas um estado de coisas. O estado natural das coisas que se tornou andar de preto na faculdade. Usando um traje académico anquilosado, que foi uma grande ideia, inventado para não distinguir entre ricos e pobres, e que agora serve, ao mesmo tempo, de marca social e de elemento de indistinção.

Obviamente nem todos respeitam as praxes nem todos professam esta ideologia - há movimentos contra, claro. Mas são minoritários, e a normalização é assustadora - até do ponto de vista político. Houve tempos em que os partidos promoveram debates, instigaram estudos e mudanças na lei. Agora... nada. Nem se fala do assunto. Em França, a prática foi debatida até à proibição. Por cá, relegou-se para o Ministério Público a atuação quando fosse cometido um crime.

Tudo isto é estranho e perigoso. Por não haver praxes violentas, corremos o risco de esquecer o mal que há em todas elas. Não é por não haver chapadas, engolir de farinha, que a prática da praxe é menos sombria para o futuro da sociedade. Não é menos grave uma jovem andar na rua com uma faixa a dizer "vaca" como aconteceu nas ruas de Lisboa, neste ano.

Há explicações que as relacionam com uma aprendizagem precoce do que "é a vida" - como uma espécie de "serviço de submissão obrigatório". Como se a vida que espera todos os jovens de hoje fosse um caminho sem liberdade, sem escolha, sem voz. Como se tudo, na vida adulta, se pudesse reduzir ao binómio mandar/obedecer, comer e calar, sob a mordaça da realidade.

Ora o que nos mostram as tendências do mundo do trabalho é precisamente uma cada vez maior importância da criatividade, o valor da originalidade e da imaginação. É a isso que se chama empreendedorismo, e o empreendedorismo é o contrário da submissão, até perante as leis do mundo e da economia.

Que país queremos - o das web summits ou o das praxes académicas? Que mundo pretendemos - um de gente solta e reivindicativa ou um em que as pessoas se calam sem mordaças, se inclinam perante qualquer autoridade e engolem qualquer patranha que lhes vendem? A resposta a esta última pergunta é para os que se surpreendem com eleições como a que hoje decorre, no Brasil, e acham que isto do populismo ainda anda muito longe de nós.

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Henrique Burnay

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Numa das muitas histórias que lhe são atribuídas, sem serem necessariamente verdadeiras, em resposta a um jovem deputado que, apontando para a bancada dos Trabalhistas, perguntou se era ali que se sentavam os seus inimigos, Churchill teria dito que não: "Ali sentam-se os nossos adversários, os nossos inimigos sentam-se aqui (do mesmo lado)." Verdadeira ou não, a história tem uma piada e duas lições. Depois de ler o que publicou no Expresso na semana passada, é evidente que a deputada Isabel Moreira não se teria rido de uma, nem percebido as outras duas.