Mr. América

Boas escolas para as crianças, bairros seguros para as famílias, empregos para todos. Mais estradas, hospitais e infraestruturas. Ah, e a paz no mundo, claro, com o fim do terrorismo.

Donald Trump diz que não é político, ganhou as eleições contra os políticos, fez um discurso de tomada de posse anunciando a revolução do povo - esta sim, agora, verdadeira, não a dos pais fundadores que, aliás, nunca citou - contra a administração de Washington.

Mas, mais uma vez em mais uma das suas contradições, acabou por ser exatamente um deles neste discurso, um político. E um dos mais básicos políticos, no mesmo sentido que Trump a costuma usar, como um insulto. Ou isso, ou Donald Trump tomou inspiração nos discursos das Miss América, que organizou entre 1996 e 2015. O vazio, igual. As ideias, idênticas: pensamento mágico e visão unidimensional da realidade.

Tudo isto teria piada se não fosse grave. Se Trump não fosse o líder de uma das mais importantes nações do mundo, não apenas do ponto de vista económico, ou político, ou geopolítico, mas também moral: aquela cuja cultura, cujos valores estão mais espalhados. Se, além do objetivo populista, direto aos ouvidos do povo, não houvesse a segunda leitura deste discurso. A de um presidente que despreza tudo o que até aqui foi a América, democrata e livre. E que propõe uma américa - sim, com letra pequena - fechada sobre si própria, em que o sonho americano se resume a uns dólares no bolso e uma estrada boa para andar.

Um presidente egocêntrico e messiânico que acha, mesmo, que é o salvador. As misses, pelo menos, sabem que aquilo que dizem são apenas palavras. Elas estão a fazer o seu papel. Ele é que devia começar a fazer melhor o dele.

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Adriano Moreira

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A Carta das Nações Unidas estabelece uma distinção entre a força do poder e o poder da palavra, em que o primeiro tem visibilidade na organização e competências do Conselho de Segurança, que toma decisões obrigatórias, e o segundo na Assembleia Geral que sobretudo vota orientações. Tem acontecido, e ganhou visibilidade no ano findo, que o secretário-geral, como mais alto funcionário da ONU e intervenções nas reuniões de todos os Conselhos, é muitas vezes a única voz que exprime o pensamento da organização sobre as questões mundiais, a chamar as atenções dos jovens e organizações internacionais, públicas e privadas, para a necessidade de fortalecer ou impedir a debilidade das intervenções sustentadoras dos objetivos da ONU.