Trump, barbies e pipis

Catarina Carvalho

De tudo, o que me incomoda mais: aquela família, os Trump, em que todas as mulheres parecem barbies. Saiam as mulheres que estão no centro do palco, venham as que fazem de moldura! Sorridentes, dentes brancos e cabelos loiros e compridos, pestanas postiças, saltos agulha, saia travada acima do joelho - podem substituir por ombro à mostra, também se aplica. E reparem, a presença dos últimos fatores podia não anular o primeiro - uma mulher até podia ter estado ontem no centro do palco e tê-los a todos, nada impedia. Acontece que não foi assim. Os americanos - e americanas - acharam que não era uma mulher que devia estar no centro do palco nestas eleições presidenciais. Acabámos assim uma noite longa, com mulheres a fazerem de moldura.

Hillary não galvanizou o voto feminino - perdeu para Trump 47%/53% o voto das mulheres brancas, por exemplo, e esteve abaixo do que foi atribuído a Obama, no total. Essa foi uma das razões da sua derrota. Não havia nada de estranho nisto se estivéssemos perante um candidato normal, até porque Hillary nunca jogou forte a cartada feminina e feminista. Havia alusões óbvias - como "Estou com ela". Mas ela nunca escolheu acentuar a tónica.

Portanto, perante um candidato normal, tê-lo escolhido podia até ser um sinal de modernidade: escolher o melhor, independentemente do género. Acontece que, nas circunstâncias específicas desta corrida eleitoral, do outro lado estava um misógino encartado, com ofensas várias ao sexo feminino no currículo e uma conduta que transmite isso mesmo - e na qual o episódio do "agarrar pelo pipi" é apenas isso mesmo, mais um episódio. Neste caso, o comportamento do voto feminino é tão estranho que não pode deixar de nos fazer refletir.