Por que votei Hillary, com a cabeça e com o coração

Catarina Carvalho

Votei Hillary Clinton. Foi assim: mandei por e-mail o boletim de voto em pdf para a Comissão de Eleições do Massachusetts, a bolinha que dizia Clinton/Kaine preenchida a preto. É um ritual de que me orgulho, exercer a minha cidadania americana votando, à distância. Sou uma absentee ballot. Sei que cumpro o sonho dos que não são americanos e gostavam de ajudar a decidir umas eleições que também os afetam. Faço--o com alegria: foi emocionante votar em Barack Obama, é muito bom votar em Hillary Clinton.

Votei em Hillary com convicção. Não foi voto útil, nem pelo mal menor - ainda que desta vez haja um mal maior. Se não existisse a ameaça Trump, Hillary seria à mesma boa candidata. Uma das mais bem preparadas para este cargo. Sabe do que fala, provou nos debates. É tenaz, inteligente - é engraçado que possa ser desvalorizada por ser mulher, quando, pelo contrário, teve de ultrapassar muito mais obstáculos por isso mesmo. Os tempos eram outros, mas Bill perdeu a primeira reeleição como governador do Arkansas, em 1982, muito porque ela não se enquadrava na imagem da primeira--dama sulista: trabalhava - foi a primeira mulher na sua firma de advocacia - usava óculos grossos, era opinativa e conservava o apelido de solteira.

Votei em Hillary também pela mulher que ela não conseguiu completamente ser. Depois de uma carreira universitária brilhante, foi sozinha para Boston, mas recebeu várias negas em firmas de advocacia por ser mulher, e acabou por ir para o Arkansas ter com Bill, rapaz charmoso mas não brilhante, por cuja carreira política deixou a dela em banho-maria. Votei em Hillary também por ter sido a mulher que foi. Percebendo que é preciso fazer compromissos, inteligentes, para que as nossas convicções não nos impeçam de atingir objetivos mais altos. Votei Hillary a pensar na menina que fui que está no ADN da mulher que sou, crescendo a achar que podia ser o que bem lhe apetecesse, sem condicionantes sociais, culturais, ou de género. A menina que percebeu que nem sempre o esforço, o trabalho e a competência são os únicos dados da equação, a mulher que fez que eles fossem os determinantes.

Sei de Hillary tudo o que a fragiliza: taticismo, venalidade, concessões à realpolitik. Acredito que as suas qualidades farão dela boa presidente de um país de que o mundo precisa: é conciliadora, ouvidora nata, conhece os assuntos, é persuasiva, mas dura. Vivo num mundo que não se confina às fronteiras americanas - sou uma american abroad. E quero alguém com visão larga, que mesmo fazendo disparates - o voto pela guerra do Iraque e a guerra na Líbia - informará o seu julgamento, tentará não ser simplista nas decisões.

Votei Hillary também pelo sonho americano que corre na minha família (de emigrantes, já perceberam) há gerações, e que recuso se esgote em construir prédios, ganhar uns milhões - muito menos fugindo aos impostos. Quero o que torna a América o lugar desse sonho: o humanismo, o respeito pelo indivíduo. Parte da carreira de Hillary foi seguindo o dever de apoiar os que não tiveram tanta sorte na vida. Talvez lhe venha do ditado, metodista, que a mãe lhe ensinou e ela repete como lema: "Faz o bem todo que possas, a quem possas, em todas as formas que possas, pelo tempo todo que possas."

Que o bem, o correto, o certo, seja um desígnio, uma referência, é um bom ponto de partida. É inspirador. Porque ficaremos sempre mais perto dele, mesmo que não se concretize por inteiro. Ao contrário, não sei onde nos levará a raiva, a divisão, a exclusão, a falta de compaixão que parecem ser os princípios da outra candidatura a estas eleições. Desta vez, eu, observadora participante, não digo que ganhe o melhor. Digo que ganhe a melhor.