Angola que não é simples

Catarina Carvalho

Angola nunca nos chega simples, sem preconceitos, intelectuais, afetivos, ideológicos. A mim chegou tarde, é um país de cuja história não fiz parte nem por motivos familiares. Em parte por causa dos slogans e do que nos ensinam na escola, versões pós-revolucionárias dos acontecimentos, tinha de Angola uma imagem maniqueísta, os bons e os maus iam variando consoante as épocas.

Alguns ficam-se por esta imagem - os que encontram conforto em ideias simples. Outros evoluem. A mim entraram pela vida pessoas para quem Angola não é questão simples, e, sobretudo, é questão delas, não de livros de História ou panfletos políticos. Sorte a minha. Descobri um país cuja complexidade vai das cores da pele - vários tons, nada a preto e branco - às ideologias, ao que o tempo foi fazendo à herança dos papéis tradicionais colonizador/colonizado.

É bom desembarcar em Luanda com este conhecimento na bagagem. Absorvem-se melhor os contrastes, as coisas boas, as coisas tontas, as coisas tortas. Coisas que nos divertem, entre uma Cuca e um pastelinho, num quintal qualquer, sorriso aberto, piadas com português pomposo e fora de tempo. Coisas que nos surpreendem como as críticas soltas ao sistema, nessas conversas e nas manchetes dos jornais vendidos no chão das ruas - "ladrão" não é palavra rara nesses títulos. E coisas que fazem chorar - sobrados e prédios históricos substituídos por arranha--céus, meninos que nos rodeiam num mercado de estrada, tão pobres, à espera de uma moedinha por um punhado de laranjas amargas que crescem, sem tratamento, apenas porque a terra é fértil nos seus quintais. Abandonados por quem não percebeu como se constrói uma nação - e também pelos que acham que podem fazer melhor.

Angola entra-nos pelos poros nesta complexidade. E é isso que não devíamos esquecer sempre que falamos dela.