Ambiente: menos coqueluche, mais realismo

Dando uma leitura atenta a todos os programas eleitorais, o ambiente ocupa lugar de destaque nas propostas para os próximos quatro anos dos partidos que se candidatam as estas eleições. É de estranhar? Não. É de desconfiar? Sempre.

Vivemos um tempo estanho em que há coisas que têm de atirar-se para dentro dos nossos olhos para as vermos, e foi mais ou menos isso que aconteceu com o ambiente. Apesar de todos os avisos dos entendidos, de todos os alertas dos ativistas, só há bem pouco tempo começou o chamado establishment a dar pelo aquecimento global - ainda assim com algum pé atrás, esgares de nojo e sentimentos de dúvida. E não por acaso: todas as mudanças do clima atingem diretamente o nosso modo de vida, sobretudo o ocidental e capitalista, como diz o PCP no seu programa eleitoral. O que está em causa é o dia-a-dia que levamos, e como o alimentamos com uma economia de abundância.

É também por isso que soa artificial a forma como o ambiente arrebatou as intenções dos partidos. Porque, a querer mudar alguma coisa, eles terão de mudar muito. Nomeadamente, no que aos mais tradicionais diz respeito, essa certa forma de vida que está baseada num modelo económico. Não há mudança ambiental sem alterações profundas na economia como a vivemos. E no modelo básico que todos os partidos do arco da governação defendem é difícil pensar um mundo que não aguenta mais o crescimento constante - já se fala numa corrente científica do "decrescimento", ou degrowth.

Não haverá melhor ambiente sem mudarmos de vida. Quem passeia numa grande capital europeia não pode deixar de reparar na insustentabilidade deste modelo de usa-deita fora, de excesso de consumo, utilização desenfreada de energia, produção contínua de lixo, ausência de qualquer contacto com a natureza. E não há bicicletas, ou trotinetas, ou patins em linha que nos valham - o problema está na ordem natural das coisas. Ou artificial, melhor dizendo.

Ora, não há quem apresente um modelo alternativo, nos programas eleitorais que lemos. Há, por exemplo, muita conversa sobre energia e como temos de a substituir. Mas ninguém se refere ao facto de que não podemos usar toda a energia de que precisamos neste momento. Nem o PAN apresenta uma mundividência diferente, este partido que, aliás, se agarrou com unhas e ganas à questão ambiental - sendo que nas suas primeiras incursões políticas ligava mais aos animais do que à natureza, algo que por vezes é incompatível. Tendo percebido o ar dos tempos, aproveitou-o e ocupou o terreno.

Que é o que faz a política, e assim deve ser, exceto no caso do ambiente, em que menos é mais. Como diz o Daniel Deusdado na edição de hoje, não podemos pensar em ambiente, de forma séria, e querer construir um aeroporto na Margem Sul, "manter o faz-de-conta sobre as monoculturas de eucalipto e pinheiro" ou construir mais não sei quantas barragens. São coisas incompatíveis e que podem custar votos.

Ponto positivo: não há, em nenhum programa, qualquer sintoma de negacionismo - o ambiente é uma unanimidade. Resta-nos esperar que não seja burra.