As miúdas têm notas melhores. E depois, o que acontece?

Nos rankings das escolas há um número que chama especialmente a atenção: as raparigas são melhores do que os rapazes em 13 das 16 disciplinas avaliadas. Ou seja, não há nenhum problema com as raparigas. O que é um alívio - porque a avaliar pelo percurso de vida das mulheres portuguesas, poder-se-ia pensar que sim, elas têm um problema. Apenas 7% atingem lugares de topo, executivos. Apenas 12% estão em conselhos de administração de empresas cotadas em bolsa - o número cresce para uns míseros 14% em empresas do PSI20. Apenas 7,5% das presidências de câmara são mulheres.

As raparigas têm muito melhores notas do que os rapazes. Começam bem, mas depois o seu percurso enviesa-se e acabam por ser minorias em cargos de chefia.

Quem visse estes números à queima-roupa pensaria que as mulheres portugueses têm um problema. E têm, mas não é o que eles indicam, de capacidade, inteligência ou saber. E o problema nem é, sequer, de afirmação. É, só e simplesmente, de presença. Não estão lá onde se manda.

Não estão lá onde se decide. Não estão lá onde se fala. E não se fala delas nem com elas - basta fazer uma análise rápida sobre o conteúdo noticioso de uma semana normal.

É sempre perigoso para uma mulher falar de assuntos femininos. Soa a poucochinho. Na verdade não é, mas parecer ser juiz em causa própria desvaloriza o tema. Acantona-o. Guetiza-o. Sim, devia haver muitos homens a falar do assunto. Que também é deles. Deles e da humanidade.

Como dizia Hillary Clinton, os direitos das mulheres são os direitos humanos - e de forma grandiloquente. E por duas razões: porque só quando houver homens a falar deste assunto ele se tornará importante, e porque sem essa partilha do poder público não haverá igualdade.

Na verdade estamos a assistir, ainda, ao contrário disso. No espaço público, que continua a ser dominado por homens, criou-se, sobretudo desde que o feminismo entrou na linguagem corrente, um subpalco para as mulheres. E elas aceitaram-no. Até porque na lógica do poder sempre vão apanhando umas migalhas. Chama-se dividir para reinar, mas não da maneira tradicional.

Nesta semana, num muito a propósito rescaldo das notícias sobre violência doméstica, foi apresentado um grande estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) sobre as mulheres portuguesas, os seus sentimentos, desejos, felicidade.

Esta última parte resume a grande novidade do estudo. Já se conheciam os dados concretos, de que as mulheres trabalham mais duas horas por dia, de trabalho informal, do que os homens, que são mais mal pagas. A parte das suas expectativas de vida e frustrações é nova.

E os resultados foram catastróficos - as mulheres portuguesas estão exaustas e sentem-se infelizes. Nem ter uma família ajuda. Nem os filhos - e muitas já demonizam esse momento em que foram mães. Dado comum a todas: têm pouquíssimo tempo para elas próprias.

O estudo esteve um dia nas notícias e logo se esqueceu o assunto - tendo-se contado pelos dedos de meia mão os cronistas que ao tema se dedicaram. Ainda menos os cronistas e opinadores masculinos que a ele se dedicaram - Marcelo Rebelo de Sousa não conta. O Presidente da República, que abriu o encontro da FFMS, era, aliás, um dos poucos homens presentes na apresentação do estudo - 1500 pessoas na Aula Magna, na Universidade de Lisboa -, terá decidido ficar para conhecer um pouco melhor o país que lidera.

Talvez para ele tenham sido uma surpresa os resultados. Mas para nenhuma das muitas mulheres que ali estavam seria. E por isso aquele não era o público para o qual este estudo seria mais útil.

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