Catarina Carvalho

Listas para tudo, Neruda para principiantes e bandas sonoras para a vida

Gosto de listas. Preciso delas para me organizar, para orientar o meu dia-a-dia, para me guiar entre o trabalho e a vida pessoal, seja para criar prioridades para a hora seguinte ou objetivos para a próxima década. Não gosto assim tanto delas como o Rob Gordon (John Cusack) em Alta Fidelidade, o clássico de Nick Hornby que Stephen Frears adaptou ao cinema - o homem até tinha uma lista para canções que gostaria que cantassem no seu funeral - mas gosto o suficiente para saber que, se tivermos uma boa lista de razões para fazermos isto ou aquilo, temos menos razões para não o fazer.

Paulo Farinha

A ameaça dos campeões europeus

PremiumNo dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

Henrique Burnay

Listas para tudo, Neruda para principiantes e bandas sonoras para a vida

Gosto de listas. Preciso delas para me organizar, para orientar o meu dia-a-dia, para me guiar entre o trabalho e a vida pessoal, seja para criar prioridades para a hora seguinte ou objetivos para a próxima década. Não gosto assim tanto delas como o Rob Gordon (John Cusack) em Alta Fidelidade, o clássico de Nick Hornby que Stephen Frears adaptou ao cinema - o homem até tinha uma lista para canções que gostaria de que cantassem no seu funeral - mas gosto o suficiente para saber que, se tivermos uma boa lista de razões para fazermos isto ou aquilo, temos menos razões para não o fazer.

Paulo Farinha

Nos limites da condição humana

Faltam cinco dias. Cinco dias até chegarmos ao 14 de fevereiro dos sorrisos e dos presentes, das surpresas e dos embrulhos, dos bilhetes e dos jantares. Cinco dias até ao fim do balão de oxigénio que o comércio recebe nesta altura, com vendas de roupa, perfumes, telemóveis, bijuteria, lingerie, bonecos de peluche e quinquilharia decorativa com mensagens de amor. Cinco dias até deixarmos de ter tanta publicidade a tudo isto. Cinco dias até deixarmos novamente para trás a felicidade com data marcada.

Paulo Farinha

Islamofobia e cristianofobia

Premium1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Anselmo Borges

Uma ameaça à cidadania

PremiumA conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.

Adriano Moreira

Deitar fora a tralha que não interessa

"Não tenho nada em minha casa que não possa transportar no meu carro." Devíamos estar em 2003 ou 2004, conversávamos enquanto íamos andando ao longo de uma rua com poucos automóveis e árvores altas despidas de folhas, ladeada por prédios bonitos com casas de grandes janelas, e a frase da minha amiga mexicana, que eu conhecia há pouco tempo, pareceu-me apenas divertida. Falávamos sobre o tamanho das salas que conseguíamos ver para lá dos vidros das janelas, de como eram estupidamente grandes, quando ela disse aquilo. "Vou mudar de casa em breve. Para uma mais pequena." E, para facilitar a mudança, Selene ia novamente aplicar uma regra que já tinha há uns anos: tudo o que lhe entrava em casa e fazia parte do quotidiano dela tinha de caber no carro - e não, não era uma Ford Transit nem uma Toyota Hiace.

Paulo Farinha

Uma estratégia comum para os povos de língua portuguesa

Quando me convidaram para tomar a palavra neste encontro partidário (Convenção Nacional do PSD), não hesitei. O tema que sugeri respeita a todos nós, independentemente do posicionamento e eventual filiação partidária. Acresce que sou secretário-geral de uma instituição, a UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e é nesta qualidade que intervenho, tendo escolhido o tema "Para uma estratégia do desígnio comum dos povos e países de língua oficial portuguesa".

Vítor Ramalho

As miúdas têm notas melhores. E depois, o que acontece?

Nos rankings das escolas há um número que chama especialmente a atenção: as raparigas são melhores do que os rapazes em 13 das 16 disciplinas avaliadas. Ou seja, não há nenhum problema com as raparigas. O que é um alívio - porque a avaliar pelo percurso de vida das mulheres portuguesas, poder-se-ia pensar que sim, elas têm um problema. Apenas 7% atingem lugares de topo, executivos. Apenas 12% estão em conselhos de administração de empresas cotadas em bolsa - o número cresce para uns míseros 14% em empresas do PSI20. Apenas 7,5% das presidências de câmara são mulheres.

Catarina Carvalho

Quando não podemos usar o argumento das trincheiras

PremiumA discussão pública das questões fraturantes (uso a expressão por comodidade; noutra oportunidade explicarei porque me parece equívoca) tende não só a ser apresentada como uma questão de progresso, como se de um lado estivesse o futuro e do outro o passado, mas também como uma questão de civilização, de ética, como se de um lado estivesse a razão e do outro a degenerescência, de tal forma que elas são analisadas quase em pacote, como se fosse inevitável ser a favor ou contra todas de uma vez. Nesse sentido, na discussão pública, elas aparecem como questões de fácil tomada de posição, por mais complexo que seja o assunto: em questões éticas, civilizacionais, quem pode ter dúvidas? Os termos dessa discussão vão ao ponto de se fazer juízos de valor sobre quem está do outro lado, ou sobre as pessoas com quem nos damos: como pode alguém dar-se com pessoas que não defendem aquilo, ou que estão contra isto? Isto vale para os dois lados e eu sou testemunha delas em várias ocasiões.

Adolfo Mesquita Nunes

O calote de 38 milhões de euros

Premium A ADSE é o maior subsistema complementar de saúde em Portugal e, com esse peso, tem negociado com os privados tabelas de pagamento de serviços. Há já alguns anos que a ADSE é totalmente paga pelos trabalhadores, os mesmos que através dos seus descontos também financiam o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Em 2015 e 2016, os grupos privados decidiram não cumprir as tabelas negociadas e cobraram mais 38 milhões de euros em relação ao negociado e a ADSE exigiu que os prestadores convencionados regularizassem os pagamentos. O caso avançou a ponto de a ADSE pedir um parecer à Procuradoria-Geral da República, que lhe deu razão. Em circunstâncias normais, os privados pagariam o calote e não se falava mais do assunto, sendo certo que o assunto era já grave o suficiente para que dele se falasse. Mas não foi isso que aconteceu, os privados uniram-se em cartel para ameaçar a ADSE, suspender os acordos vigentes e tentar convencer a opinião pública de que têm o direito de impor a tabela de preços que bem entendem fugindo aos compromissos negociados previamente. Grupo Mello e CUF, à cabeça, lançaram-se nesta missiva para que, mais uma vez, prevaleça o negócio à frente da saúde.

Marisa Matias

Traduzir a democracia em realidade

PremiumAo passarmos os olhos pela história recente da democracia como regime e sistema político, percebemos que um dos seus grandes desafios tem sido concretizar os valores que a norteiam. Se genericamente a democracia lutou, numa primeira fase, pela implantação dos valores da igualdade, liberdade e solidariedade, posteriormente, viu-se (e vê-se!) confrontada com a necessidade absoluta de traduzir a teoria dos princípios democráticos na sua prática política. A estabilidade da democracia enquanto garante da justiça social e até enquanto sistema depende da capacidade de garantirmos a filiação da prática política aos valores democráticos.

Maria Antónia de Almeida Santos

A revolução adiada de Henry Ford

Premium As investigações à CGD e os diferentes comentários sobre o que se vai sabendo evocam uma célebre frase atribuída a Henry Ford (1863-1947), e que todos os professores de Economia gostam de citar quando iniciam os seus estudantes nos segredos do sistema bancário: "Ainda bem que o povo da nossa nação não percebe como funciona o nosso sistema bancário e monetário, porque se compreendesse, acredito que haveria uma revolução antes de amanhã de manhã." A ideia febril de que as cumplicidades e compadrios cometidos no banco do Estado, durante o auge do domínio da tribo liderada por Salgado e por Sócrates, levariam logicamente à necessidade de privatizar o último moicano da banca pública nacional revela que Ford tem razão. A ignorância do povo e dos seus representantes (aqui, uma ignorância às vezes muito convenientemente cultivada) continua a ser o melhor castelo onde se abrigam os poderosos do mundo, com os seus modelos de governação e influência (i)legais, mas altamente efetivos.

Viriato Soromenho-Marques

Morrer em directo

PremiumPara os meus irmãos não voltarem à carga com a história de terem um cão - o que numa casa alcatifada, como eram quase todas no final dos anos sessenta, estava fora de questão -, a minha mãe tentou arrumar o assunto (pelo menos, temporariamente) comprando-nos três peixinhos de aquário, dos quais, por acaso, me calhou o mais feio. Era um espécime amarelo que alguém classificou como golden para me consolar, mas cuja falta de graça tentei compensar com um nome suficientemente snob: Mr. Pickwick.

Maria do Rosário Pedreira

Sopa de Mel

PremiumOs programas de culinária fazem parte há tanto tempo da paisagem televisiva que é difícil recordar quão contra-intuitivo é o conceito. Enquanto a esmagadora maioria das actividades competitivas transmitidas no pequeno ecrã nos fornecem a possibilidade de avaliar os méritos dos participantes segundo os mesmos critérios que os juízes, e gritar no conforto do sofá que a voz "desafinou" ou que "não era penálti", os programas de culinária mostram-nos uma actividade avaliada pelos três sentidos que a televisão não alcança. Qual a reacção instintiva perante afirmações tão peremptórias como "a bolacha está dura", "o peixe tem pouco sal" ou "o caldo precisava de mais sabor"? A reacção instintiva é renunciar à reacção instintiva e adoptar a reacção educada: educada pela experiência prévia de ver televisão.

Rogério Casanova