A "economia do streaming"

A música que ouvimos, ou pelo menos a que eu ouço, é gerada por um algoritmo. A partir dos estilos e bandas que mais ouço, o Spotify decide sozinho. Estas escolhas muitas vezes são ignoradas quando saltamos esta ou aquela canção, o que hoje é perfeitamente normal e fácil, pois se há umas décadas atrás se rebobinava com uma caneta ou com muita paciência, no play/stop stop/play, se tentava acertar na canção certa, hoje tal não acontece.

E estes saltos são uma das mais importantes variáveis da "economia do streaming", que está a mudar a forma como os artistas são pagos. O arranque da canção e o momento em que o refrão aparece é cada vez mais relevante para que o ouvinte não avance, pois interessa aos músicos que as suas músicas se mantenham "musicáveis" pelo menos por 30 segundos. Sim, apenas e só 30 segundos, porque os artistas são pagos ao "stream" e cada "stream" tem a duração exacta de 30 segundos. O que faz com que os álbuns tenham cada vez mais músicas mas... mais curtas. O que faz também com que os artistas depositem nesses 30 segundos toda a sua inspiração e máxima criatividade. E... será que conseguem?

Não quero dizer com isto que a "criatividade diluída" ao longo das canções tivesse sido diferente no passado. O que sei, ou pelo menos o que arrisco dizer, é que se há uns anos atrás as músicas longas e elaboradas eras as mais aclamadas, hoje, uma canção como o November Rain dos Guns N'Roses dificilmente sobreviveria.

Nos últimos 18 anos as canções diminuíram cerca de 30 segundos e continuam a ficar cada vez mais curtas. O streaming está a mudar o modo como consumimos música e por sinal, está também a condicionar a forma como as canções são escritas. A pergunta que faço é se a "economia do streaming" está ou não a ditar a qualidade da música?

A qualidade não sei, mas sei que as receitas está. E muito! Pois os pagamentos de serviços de streaming de música como o Spotify e o Apple Music representaram 75% de todas as receitas de música dos EUA em 2018 e apenas 21% em 2013.

É caso para dizer que o pior que pode acontecer a músicos e distribuidores é haver ouvintes com o dedo nervoso!


Director do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

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