Lágrimas, superstição, desilusão e obrigados

Há 34 dias, quando saí de Portugal, não imaginava que todos os portugueses estivessem agora em festa. Devo dizer que foi um prazer acompanhar a seleção portuguesa. O título europeu sabe bem, mas eu fiquei anestesiado e rendido ao amor que os emigrantes nutrem por Portugal.

No dia em que a comitiva portuguesa chegou à pacata vila de Marcoussis a receção foi algo de impressionante. Marcante. Mas literalmente tocante é o dia-a-dia destas pessoas que vivem em França mas têm o seu país no coração. Não verti lágrimas com o golo de Éder, mas senti-as a correr em Lens quando Portugal defrontou a Croácia nos oitavos-de-final. O lugar que a UEFA me destinou foi na coxia, paredes-meias com as bancadas. E quando A Portuguesa foi entoada vi pequenos e grandes, homens e mulheres, chorarem compulsivamente. Esse, para mim, foi o meu momento no Europeu.

Não se pense que os emigrantes portugueses são destratados pelos franceses. Pelo contrário, dizem-se apreciados pela sua capacidade de trabalho e empenho. Verdade que desde a primeira hora muitos temiam uma derrota numa eventual final com a França preferindo até que Portugal não estivesse no jogo decisivo; temiam ser alvo de brincadeiras. Nada mais do que isso. Ganharam e, como comprovei ontem pelas cadeiras vazias do restaurante português em que fui um fiel cliente até ao dia de hoje, fizeram do 11 de julho um feriado português em França. Agora a vida continua, com mais orgulho é certo, mas não há um antes e um depois.

Não sou de elogios fáceis, e continuo a discordar em muita coisa de Fernando Santos, mas o selecionador soube ganhar este Europeu com o poder do discurso. Numa altura em que parecia descabido disse convictamente que só regressava a 11 de julho. E esse foi o tempo em que Portugal empatava com Islândia, Áustria e Hungria.

O discurso pegou. Anotei também algumas superstições e rotinas de Fernando Santos. Exemplos: Portugal treinou no palco do jogo, na estreia em Saint-Étienne com a Islândia. Nunca mais o fez; o futebolista que ia à conferência de imprensa de antevisão era sempre titular no dia seguinte; a mesa em que falou aos jornalistas no dia seguinte a cada encontro estava normalmente disposta em U mas no último contacto alguém a tinha colocado de uma outra forma. Era ver o engenheiro a pegar nos elementos da mesa até a mesma ganhar a posição original. Isto não vence jogos mas faz acreditar, que foi a palavra-chave. Não se pense que num grupo de 23 todos são amigos e que não há o mínimo problema. Eles existem, mas eu já vi centenas de treinos e tenho dificuldade em lembrar-se de uma equipa tão empenhada numa meta traçada. Quem me conhece sabe que não gosto de algumas atitudes de Ronaldo, principalmente quando algum jogador, que não ele, marca pelo Real Madrid. Mas hoje digo com prazer que a partir do tal jogo com a Croácia o capitão fez jus à braçadeira e mereceu tanto levantar aquela taça. Foi em Lens que Fernando Santos meteu uma mão na taça e que os mais céticos perceberam que o engenheiro era bem capaz de cumprir a promessa de regressar apenas ontem. Isso e um rapaz islandês chamado Traustason que um dia terá o seu nome, juntamente com Éder, numa rua no nosso país.

Nas minhas linhas finais, uma desilusão e vários obrigados. Desilusão para o mau perder dos franceses, que só questionavam a forma de jogar de Portugal. O meu obrigado à seleção por me ter proporcionado este momento que um dia contarei em pormenor à minha filha Clara e aos meus netos. O meu obrigado aos emigrantes, por me terem ensinado como Portugal bate forte para quem está longe. O meu obrigado por a Federação ter acarinhado os emigrantes. O meu obrigado aos meus colegas da comunicação social com quem convivi nestes 34 dias e o meu MUITO OBRIGADO aos meus colegas do Desporto do DN que fizeram tudo para que o meu trabalho em França fosse o melhor possível. A si, caro leitor, espero que tenha gostado. Pelo menos tanto como eu.

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