O mundo ao contrário

A semana ficou marcada por três importantes discursos. Em Davos, no Fórum Económico Mundial, o presidente chinês surpreendeu ao dar ao encontro o estatuto de palco privilegiado da nova inserção chinesa global. Ao contrário de anos anteriores, desta vez Pequim não enviou quadros intermédios governamentais à Suíça, mas mais de uma dezena de proeminentes governantes que deram coesão política ao discurso de uma hora feito por Xi Jinping. Aliás, o programa estava rendido às oportunidades asiáticas, tais eram os painéis dedicados às suas diversas facetas, pelo que foi com satisfação que a plateia acolheu as palavras presidenciais. Ao contrário de outros, Jinping não diabolizou a globalização como origem de todos os males, mas assumiu querer influenciá-la a bem dos interesses chineses e da manutenção do livre-comércio.

Do ponto de vista prático, não podia ser de outra forma, tal a dependência do modelo global de livre circulação que faz da China o maior exportador mundial.

Mas do ponto de vista conceptual e sobretudo estratégico, Jinping trouxe duas novidades: primeiro, aproveitou as angústias de muitos investidores e países com o modelo comercial mais restritivo proposto por Trump para ocupar o potencial espaço livre deixado por Washington; segundo, assumiu uma vocação universal para o estatuto da China na ordem internacional em evolução, quando até aqui o foco da sua ascensão estava sobretudo centrado na Ásia. Mais: ao defender claramente o Acordo de Paris sobre alterações climáticas, ao contrário de Trump, que já disse não o respeitar, Jinping fez simultaneamente o reconhecimento de que a gestão climática é um dilema político interno na China, como sublinhou o respeito pela assinatura de um acordo que vai passar a ser maldito em Washington, virando assim o mundo contra a administração americana. Foi uma forma hábil de disseminar o soft power chinês.

Em Londres, Theresa May discorreu finalmente sobre o modelo de brexit perante uma plateia repleta de embaixadores de países da UE. A primeira confirmação é a impossibilidade de pertencer ao mercado único sem respeitar a liberdade de circulação de pessoas. Ao contrário dos mais estridentes defensores do brexit no referendo, que juravam não estar em causa a pertença ao mercado único, é claro que esse requisito nunca poderia ser garantido por Londres. O que May fez nesta semana foi chamar mentiroso ao séquito de Boris Johnson. Além disso, a primeira-ministra sugeriu que a integração numa união aduaneira ou mesmo a assinatura de um acordo de comércio livre com a UE poderia continuar a defender os interesses de certas dimensões da economia britânica, em particular os serviços financeiros de Londres. Só que isto levanta dois problemas práticos: negociar um acordo bilateral área a área é por si só demorado, além de pressupor que o Reino Unido já esteja formalmente fora da UE; pertencer a uma união aduaneira nas atuais regras comunitárias não permite ao Reino Unido negociar acordos comerciais com o resto do mundo a título individual.

Ou seja, May não tem nenhuma escapatória verdadeiramente sólida, o que a fragiliza politicamente e assusta países que estão neste momento com os olhos totalmente abertos à evolução das negociações com Bruxelas, caso da Irlanda, onde estive nesta semana. Dublin vive, aliás, uma tripla incerteza: o impacto do brexit, a evolução das propostas comerciais e fiscais feitas por Trump, e o quadro comunitário de progressiva degradação da coesão interestadual. Ora, se pensarmos que estes dilemas se restringem à Irlanda, estamos a cometer um erro. Qualquer pequeno ou médio Estado membro com uma economia aberta, caso de Portugal, deve seguir ao milímetro as preocupações sentidas por Dublin, ser ativo nesse debates e defender os seus interesses com solidez.

Theresa May prosseguiu sobre a imigração e a incompatibilidade entre respeitar a liberdade de circulação e querer selecionar quem entra. Londres escolheu esta última como mecanismo legitimado pelo referendo, garantindo assim que será o Parlamento a definir a política de imigração britânica. Acontece que já era. O que May não conseguiu afirmar é como defenderá legalmente os direitos dos mais de três milhões de cidadãos da UE a viver no Reino Unido. Dizer que o fará não é o mesmo que dizer como o fará. No fundo, Theresa May tem um mandato para tirar o país da UE, mas continua sem um plano firme que garanta ao país um estatuto igual ou superior fora dela. Acreditar que Washington virá em seu socorro ou que de um momento para o outro serão assinados acordos bilaterais mais vantajosos do que a pertença ao mercado único é pura ilusão. Isso mesmo foi confirmado por Trump no derradeiro discurso da semana, o da tomada de posse.

O novo presidente dos EUA perdeu uma boa oportunidade para gerar outra empatia com o público, como muitas vezes acontece nestas ocasiões. Ao invés, foi explícito no nacionalismo, protecionismo, antagonismo comercial, hostilidade com a imigração, cavando um fosso entre o seu círculo de poder e mais de metade dos americanos. Depois de ter convergido com Putin sobre o estado obsoleto da NATO, ter o claro intuito de dividir os europeus desvalorizando a sua coesão, e de ter apoiado o brexit - trilogia absolutamente singular num presidente americano do pós-guerra -, chegamos ao final de uma semana absolutamente marcante na história recente do Ocidente com um protótipo do mundo ao contrário: os EUA em fuga da ordem liberal que criaram, o Reino Unido sem destino fora da ordem liberal que ajudaram a criar, e a China a querer liderar uma ordem liberal de que nunca fez parte. Preparemo-nos: 2017 ainda é uma criança.

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