O enigma militar chinês

Uma das grandes dúvidas que se colocam sobre a brutal ascensão da China está na forma como irá usar as suas capacidades militares. A investir na defesa por via do seu sustentado crescimento económico de duas décadas (embora com orçamento estimado em sete vezes menos que o dos EUA), tem uma dupla propensão estratégica a que, aliás, o mais recente relatório anual do Pentágono dá relevância. Por um lado, uma apetência pela melhoria tecnológica aeronáutica e cibernética; por outro, uma disponibilidade cada vez maior em dotar-se de meios navais. Se a primeira procura potenciar as virtudes de muitos sectores da economia e abrir brechas no Ocidente (os ciberataques à NATO que o digam), a segunda tem uma explicação lógica. O colapso da União Soviética desviou as preocupações para Taiwan e o motor económico e humano chinês está sobretudo concentrado ao longo da costa Leste. Para além disto, 90% do seu comércio faz-se por mar e a alimentação petrolífera transita em 80% pelo estreito de Malaca e Mar do Sul da China. Há uns anos, o governo chinês comprou um porta-aviões à Ucrânia dizendo que seria para recriar um casino. Há poucas semanas, esse mesmo porta-aviões foi apresentado pelo regime como o símbolo militar desta nova China, potência naval do Pacífico. As intenções militares de Pequim são, por isso, duvidosas e o Pentágono abre a porta a que venha a ser nesta década "potencialmente desestabilizadora" na região. Choveram críticas ao alarmismo mas, em boa verdade, é difícil ser mais rigoroso sobre as reais intenções chinesas e o que fará com tanto investimento militar. De uma coisa podemos estar certos: só se adquire experiência militar em teatros de guerra e só se afinam tecnologias experimentando. É a China que, depois do adágio de Churchill sobre a Rússia, carrega os maiores mistérios dentro de outros tantos enigmas.

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