Verdadeiros alvos

O terrorismo tem feito parte da história da Europa. Para não recuar mais, nos últimos 45 anos há registos de quase 16 mil ataques só na Europa Ocidental, a maior parte deles sem vítimas e concentrados no Reino Unido, Espanha, Itália e Alemanha, focados essencialmente na desagregação do Estado (IRA e ETA) e na subversão do statu quo político através da "revolução permanente" (Brigate Rosse e Baader Meinhof). Tudo muda com a ascensão do terrorismo islâmico (Al-Qaeda e ISIS) espelhada na trilogia apocalíptica Nova Iorque-Madrid-Londres e no eixo Paris-Bruxelas. A aura romântica do terrorismo clássico (para os desculpabilizadores) não sobreviveu ao horror da jihad contemporânea. O novo, ainda que mal mapeado, resultou numa queda abrupta dos ataques, embora com mais vítimas de uma assentada. Onde quero chegar? Aqui: a Europa não está hoje mais exposta ao terror do que em décadas passadas. Mais: a Europa tem estado menos exposta ao terror islamista do que sociedades muçulmanas no Norte de África, Médio Oriente e Ásia Central. A prova? Em 2015, sangrento pelos atentados em Paris, morreram 16 vezes mais civis em ataques iguais e com a mesma assinatura em países dessas regiões. Aos olhos desta escumalha, os principais apóstatas são os muçulmanos que não os seguem, nós instrumentais na mediatização do terror. Nos três dias após Bruxelas, morreram no Paquistão, Iraque e Iémen quatro vezes mais inocentes (a maioria crianças) em três certeiros ataques bombistas. Para o ISIS os três juntos não fazem mediaticamente um como Bruxelas e isso é tudo para quem é radicalizado no festim do horror ao computador num bairro europeu. O nosso combate é essencialmente político. Para tal é preciso autoridade de Estado onde ela não tem chegado e outro palco aos muçulmanos nas nossas capitais para que sejam eles a desmontar a mensagem manipulada, virando-a contra os terroristas. A falta de coragem de uns tem sido a cobardia de outros.

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