Unidos contra o Podemos

As incompatibilidades pessoais são estruturais na política espanhola. Rajoy detesta Sánchez, que lhe retribui o carinho, Rivera exige que Rajoy saia para viabilizar um governo do PP, Iglesias passa o tempo a fritar Sánchez em lume brando, Sánchez não suporta Iglesias que por sua vez despreza Rivera, e este mandaria de bom grado Iglesias para Caracas. Os quatro vão novamente a eleições acenando com a colagem de peças de um puzzle, depois de terem falhado compromissos mínimos e feito gala das intransponíveis barreiras no último debate televisivo. Não custa perceber porque há hoje mais de 30% de indecisos: com os líderes partidários bloqueados nos seus nichos e pequenos ódios, muitos espanhóis vão acompanhando os bloqueios do sistema como uma epidemia democrática. Entretanto, Espanha dá uma imagem externa que associa indefinição política a maior desconfiança dos investidores, com impacto no atual momento da zona euro, da UE e de Portugal. Dijsselbloem, o pirómano de serviço, faz o resto. Conclusão: é mais fácil pôr de acordo o PCP e o PS do que o PP e o PSOE. Mas esta campanha está mais assente na fórmula "três mais um" do que numa disputa a quatro. Quem está no centro do debate é Rajoy, depois de passar pelos pingos da chuva e aguentar, até ver, o partido consigo. A sua crença reside no regresso dos eleitores perdidos para o Ciudadanos e no auxílio da abstenção, matemática que pode levar Rivera a viabilizar a recondução de Rajoy. O Podemos juntou-se à Esquerda Unida para colmatar perdas regionais e tentar de uma vez por todas a pasokização do PSOE. As sondagens validam a estratégia, mas podem também forçar o PSOE, já sem Sánchez, a viabilizar a investidura de Rajoy, abstendo-se. Veremos se a ascensão do Unidos Podemos não será o argumento em falta para que os outros ultrapassem as eternas e mesquinhas incompatibilidades pessoais.

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