Uma piada demasiado séria

É a pergunta que muita gente faz: terá Donald Trump passado de bizarria a provável vencedor das primárias republicanas? Entre muitos dirigentes começa a parecer incontrolável travar um fenómeno que está há seis meses à frente nas sondagens, temendo novo desastre em novembro, o terceiro consecutivo em presidenciais. A "super PAC" que empurrou Jeb Bush com 100 milhões de dólares parecia ditar a grelha de partida, mas o foco em Marco Rubio deixou Trump solto como um papagaio. Daí à língua solta foi um ápice. O que mais assusta nisto não é a quantidade de disparates que saem da boca do velho Donald, é o facto de nenhuma das atoardas o ter feito escorregar nas sondagens, o que diz muito do estado em que o GOP se encontra: completamente refém da narrativa antissistémica do Tea Party. Trump não é um candidato saído do puritanismo evangélico e católico, como Rick Santorum em 2012, ou próximo da máquina do partido, como Jeb Bush. O sucesso da campanha de Trump reside noutros fatores. Primeiro, no mediatismo bombástico sem travão (e sem custos) e que marca o debate de forma abrupta. Segundo, na mensagem de renascimento do sonho americano refletido no seu percurso de vida. Terceiro, na transformação da sua excêntrica figura num movimento com raízes populares: antipolítica feita em Washington, anti-imigração e antiglobalização. Só a partir da "super terça-feira" (1 março) é que teremos uma ideia mais clara sobre as hipóteses reais de Trump. Se os anticorpos do GOP mais tradicional e responsável gerarem a partir daí uma frente anti-Trump (apoiando, por exemplo, Marco Rubio), podemos ter uma situação não muito comum mas longe de ser inédita: não existir um vencedor óbvio à entrada da convenção republicana (julho, no Ohio) e surgir uma terceira figura que recolha a maioria do apoio dos delegados. O espectáculo ainda agora começou.

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