Uma janela para a Síria

Chegaram a chamar "grupo de amigos do povo sírio" aos encontros internacionais dedicados à guerra que ali grassa há quase cinco anos, mas felizmente deixaram de conspurcar a palavra amizade. A política internacional não está para romantismos inconsequentes, precisa de convergência de interesses para, de forma pragmática, resolver problemas comuns. E assim, sem recurso a floreados, dezasseis Estados e duas organizações (UE e ONU) com interesses na Síria sentaram-se em Viena para duas coisas essenciais: dirimir posições divergentes num fórum diplomático e tentar reanimar um roteiro político que possa moldar, em paralelo, o fim do conflito. Esta reunião foi muito importante por revelar o entendimento geral sobre o momento decisivo que se vive na Síria e no Médio Oriente. Mas foi igualmente importante porque pela primeira vez o Irão esteve presente e ainda porque, também pela primeira vez desde o início da guerra, Teerão e Riade sentaram-se à mesa. E não há nenhuma arquitetura de segurança estável no Médio Oriente sem uma certa compatibilidade de interesses entre os dois, a começar pelo futuro de Assad e a acabar no fim da guerrilha. Claro que este par não faz o futuro brilhante, mas sem um mínimo denominador comum tudo piora na Síria, no Iraque, no Iémen ou no Líbano. Infelizmente, os pontos positivos ficam por aqui. É verdade que um fórum destes pode ser a fronteira entre a continuação e o fim da guerra, do crescimento do ISIS e do fluxo de refugiados, mas é completamente impossível encontrar soluções para a Síria sem sentar à mesa governo e oposição. E ambos estiveram ausentes em Viena. Se Viena II acontecer nas próximas semanas, os dois lados não podem continuar de fora e tudo deve ser feito para manter colados à mesa o Irão e a Arábia Saudita. Caso contrário, a melhor janela para a paz até aqui entreaberta voltará a fechar-se com estrondo.

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