Trumpismo

Desvalorizar Trump é um erro crasso. Há quem não pronuncie o nome, quem reduza tudo ao penteado, ou o chame de louco apenas porque sim. Paradoxalmente, há aqui semelhanças com a estratégia de Trump: simplificar para fixar mensagem, ofender para marcar agenda, ser histriónico para amplificar o ódio que corre na América. Hillary percebeu que não pode ir na cantiga e tem exposto as contradições do republicano. Assim, eleva o debate e mostra o essencial do momento político: regressão nalgumas boas tradições republicanas (defesa do comércio livre, estabilidade das alianças, limites ao papel do Estado, solidariedades democráticas no exterior, respeito pelas liberdades) e o incendiar da coesão social, discurso político, relação com os militares e da intolerância num país de imigrantes. Vale a pena não cair no facilitismo analítico sobre Trump. Ele não é uma bizarria ou um produto de reality show. Dá, isso sim, corpo a uma extrapolação natural do discurso nacionalista que grassa na sociedade americana - com ecos em tantos outros países -, narrativa até que vários presidentes democratas e republicanos encarnaram no passado, mas cuja centralidade o GOP parecia ter posto de lado a partir de Reagan. Necessariamente, a política externa retoma protagonismo nesse contexto e se Hillary é rosto da geração internacionalista do pós--Guerra Fria, com Bill Clinton à cabeça, Trump recupera a interpretação ultrarrestrita do interesse nacional, por exemplo, de Andrew Jackson. Em rigor, estamos a falar de escolas diametralmente opostas, entre o voluntarismo global e o nacionalismo extremo, ambos erráticos e com efeitos em todo o mundo. Como em tudo na vida a sensatez está no meio e um dia far-se-á a justiça de atribuir o lugar a Obama. Foi ele quem, na história recente dos EUA, mais se aproximou da prudência.

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