Trump no sapato de Guterres

São três as semanas que separam a tomada de posse de António Guterres da chegada à Casa Branca de Donald Trump, mas os caminhos dos dois estão mais próximos do que faz querer essa distância. Sobre a ONU, conhece-se pouco ou nada o que pensa Trump, e, em boa verdade, a única organização internacional que o republicano referiu em campanha foi a NATO, com uma evolução positiva nas declarações que lhe dirigiu, começando há uns meses por desprezar o artigo 5.º da defesa coletiva obrigatória em caso de um ataque russo, depois passou pela clássica bandeira sobre a parca contribuição europeia para o orçamento da Aliança, para terminar em declarações de amor pela mesma até à nomeação de um general experiente para o Pentágono (James Mattis), tranquilizando um pouco os aliados.

De qualquer forma, a proximidade da team Trump ao círculo de Putin continua a suscitar muitas inquietações na Europa, entre os que pensam ser esse um passo para conter a passada russa e aqueles que o veem como um salvo-conduto para Putin prosseguir com a implosão do Ocidente liberal através de uma intervenção faseada nos vários processos eleitorais europeus. A simples existência destas duas perceções em relação a Washington é já um sintoma de que Trump é, na relação com a Rússia, uma rutura sistémica no pós-1989.

Voltemos à ONU. A única declaração de Trump sobre a organização tem mais de quatro anos e vem, como seria de esperar, de uma tirada no Twitter sobre a necessidade de mudar o mármore da sala da Assembleia-Geral. Não há posições sobre os seus méritos e deméritos, o que pode indiciar que as organizações internacionais não são a prioridade da sua linha internacional: nem as procurará esvaziar nem reforçar. O seu cálculo é sempre de custo-benefício para os EUA, numa lógica que replica o seu trajeto nos negócios. Neste sentido, desmantelar a NATO ou a ONU pode custar mais a Washington do que pagar, respetivamente, 75% e 22% dos seus orçamentos. É que os perigos da desagregação caótica do sistema internacional trariam mais prejuízos aos interesses económicos e securitários americanos do que a fatura paga atualmente para que os vários puzzles regionais funcionem minimamente. Daí a importância da nomeação de Nikki Haley para embaixadora na ONU, a qual, não sendo sequer um peso-pesado da diplomacia americana (é somente governadora da Carolina do Sul), é pelo menos mais próxima da visão internacionalista de António Guterres do que dos setores nacionalistas que rodeiam Trump. Quer isto dizer que a próxima administração não vai ser um problema para o novo secretário-geral da ONU? Não. Quer dizer que Trump pode não descapitalizar o orçamento da organização nem minar publicamente a sua lógica e estrutura. No entanto, Guterres pode esperar de Washington entraves em pelo menos cinco grandes áreas.

A primeira diz respeito às alterações climáticas e ao celebrado Acordo de Paris. Não só é Trump um descrente na dimensão científica da matéria, como nomeou um dos maiores detratores das políticas ambientais de Obama (Scott Pruitt) para a Agência de Proteção Ambiental, e Rick Perry para secretário da Energia, até há pouco diretor da petrolífera encarregada de explorar o polémico pipeline do Dakota. Além disso, Trump pode recusar cortar nas emissões de carbono e contribuir para o fundo global de ajuda aos países vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas, retirando força a pontos cruciais do Acordo de Paris, mesmo que não o rasgue formalmente.

A segunda reside no acordo sobre o nuclear do Irão, o qual, tendo sido negociado a seis, teve o aval do Conselho de Segurança por unanimidade, órgão que está também encarregado de monitorizar o cumprimento do pacto através dos relatórios que imperativamente lhe chegam da Agência Internacional de Energia Atómica. Neste âmbito, Trump foi sempre taxativo: o acordo é "uma ameaça à segurança dos EUA".

A terceira está na área mais sensível a Guterres, a gestão humanitária do maior fluxo descontrolado de refugiados e deslocados desde a Segunda Guerra Mundial. E se os dez anos à frente do ACNUR lhe dão uma experiência incomparável sobre as várias frentes cruzadas que vão da origem aos efeitos dessa catástrofe, o que é certo é que sem o apoio de Estados cruciais ao desbloqueio de guerras civis, por procuração ou totais, dificilmente qualquer corredor humanitário terá sucesso para acudir uma cidade na Síria, uma aldeia na Etiópia ou um campo de refugiados no Líbano. Tendo em conta que Donald Trump defendeu barrar a entrada a refugiados de uma série de países (invariavelmente com guerras intermináveis) e que tem uma predisposição difusa entre agir militarmente contra o terrorismo além-fronteiras e intrometer-se menos na gestão e na prevenção de conflitos regionais, o campo é vasto para desentendimentos de fundo.

A quarta está na forma como Trump e Putin afinarão estratégias na Síria e na Ucrânia, e como entrarão em choque com a sensibilidade humanitária do secretário-geral e os interesses de outros membros do Conselho de Segurança. Validar a anexação da Crimeia, descongelar sanções ou participar numa missão conjunta no Médio Oriente dissimulada de antiterrorista não são pontos facilmente aceites pelos republicanos no Congresso nem por aliados europeus.

A quinta olha para Israel e a Palestina como um processo bloqueado mas acicatado pela linha agressiva de Trump na defesa dos colonatos e do estatuto judaico de Jerusalém (a nomeação de David Friedman para embaixador em Israel mostra como esta vai ser a linha preferencial), abrindo não só uma frente com a posição mais construtiva de Guterres, mas também com uma Assembleia-Geral repleta de posições inflexíveis anti-Israel.

António Guterres traz às Nações Unidas capital político, experiência, humanismo, conhecimento, argumentação, credibilidade e comunicação. Mas nem a natureza das nações nem o senhor Trump lhe vão facilitar a vida.

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