Trump e a Síria

Deixo para o habitual artigo de domingo as possíveis consequências deste ataque norte-americano à base síria de Al-Shayrat, nos arredores de Homs, também usada pelas tropas russas. Parece-me igualmente pertinente levantar algumas questões sobre o timing da decisão de Donald Trump e os possíveis motivos que a conduziram. Até porque há três circunstâncias importantes que a rodeiam: as investigações no Congresso à intromissão russa nas eleições de novembro, a visita de Xi Jinping aos EUA, e a incapacidade do Conselho de Segurança em aprovar uma resolução condenatória do uso de armas químicas pelo regime de Assad.

Comecemos por esta última. É sabido que o presidente Trump não morre de amores pela ONU, pelo seu funcionamento ou pela ideia de ali estar concentrada, em exclusivo, a legalidade do uso da força. Foram já anunciados cortes a agências humanitárias e mesmo que a embaixadora Nikki Haley possa ser uma interessante interlocutora do secretário-geral António Guterres numa série de questões, o núcleo duro da administração não vai perder grande tempo com procedimentos estatutários perante uma qualquer crise internacional. Nesta semana, depois do que se passou em Idlib, americanos, franceses e britânicos tentaram aprovar um texto no Conselho de Segurança que não só condenasse o ataque químico como autorizasse expressamente uma investigação, obrigando o governo sírio a revelar os nomes dos envolvidos no ataque e a libertar os planos militares previstos para aquele dia. No fundo, expor internacionalmente a cadeia de comando militar de Assad, fomentando até algumas deserções. Sem surpresa, a Rússia vetou liminarmente este plano, dando um claro recado a Washington: na ONU nada sem faz sem Moscovo.

A segunda circunstância encaixa aqui. A administração Trump está sob fogo cruzado perante a investigação aos ciberataques russos à campanha democrata com o conluio de membros da equipa de Donald Trump, e a uma convergência de interesses de alguns membros da Casa Branca com a nomenclatura russa, motivos de sobra para estilhaçar a aparente união entre a administração e os congressistas republicanos, depois da derrota estrondosa que estes últimos impuseram ao plano presidencial com vista a implodir o Obamacare. A passada de Putin no Ocidente divide os republicanos, pelo que qualquer argumento extra que agrave a perceção de que Trump está no bolso de Putin é um prego no caixão da unidade republicana. Trump pode ser um destravado na linguagem, mas não é completamente destituído de pragmatismo político, como prova a ótima escolha de Fiona Hill para liderar os assuntos europeus e russos na Casa Branca.

Em terceiro lugar, Xi Jinping. Só o facto de existir uma cimeira bilateral depois da agressividade anti-Pequim que pautou a campanha de Trump é já uma cedência ao pragmatismo do cargo presidencial. Tal como o recuo nas declarações sobre Taiwan, ou mesmo a narrativa menos provocadora sobre a política comercial chinesa. Neste sentido, não é despropositado pensar que Trump precisava de mostrar músculo e autoridade internacional à comitiva chinesa, uma forma de sinalizar a manutenção da opção militar americana perante o descontrolo nuclear norte-coreano nas barbas da potência chinesa.

No fundo, Trump disse três coisas simples: atacamos quando queremos, desprezamos o que entendemos, mudamos de estratégia quando precisamos. As três servem propósitos imediatos no plano interno e na arena internacional, mas os efeitos estão por medir. É o que tentarei fazer amanhã.

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