Triângulo no estreito

Se Washington e Pequim são a mais importante relação bilateral da atualidade, Taiwan é a peça que separa o bom do mau momento. Só isto já nos devia fazer virar o radar para o que ocorreu há dias na ilha, com o partido pró-independência a vencer presidenciais e maioria absoluta parlamentar. Vamos ter posição unilateral contra Pequim nos próximos tempos? Vai a eleição endurecer a República Popular, depois de oito anos de acalmia com Taiwan e avanços na interdependência económica? Irá Washington aproveitar o momento para se consolidar como garante da autonomia de Taiwan? Mais uma vez, timing, tempo e modo são tudo em política. A administração Jinping está a gerir os efeitos estrondosos da transição do modelo económico e a executar uma estratégia agressiva e pausada para controlar áreas marítimas disputadas por soberanias vizinhas. Um nervosismo chinês pode interpretar mal os sinais dados pela nova gerência de Taiwan, que não defendendo o independentismo unilateral - quer "manter o statu quo" - pode não controlar os ímpetos da geração mais nova. Sondagem recente diz-nos que só 3% da população se considera chinesa, 33% veem-se repartidos e 56% só taiwanesos, que 9% querem a unificação e 20% a independência. A forma como evoluírem estas sensibilidades e o modus vivendi bilateral ditará o nível de contestação ou de acomodação. Por exemplo, se a dependência comercial com a China (para onde vão 40% das exportações) começar a ser um entrave ao potencial de Taiwan, isso pode alimentar o fim das virtudes do statu quo. O desanuviamento com a China tem sido pedra angular da administração Obama, que tratou de enviar dois experientes diplomatas a Taiwan (William Burns) e a Pequim (Anthony Blinken). A Casa Branca não quer confusões, mas pode ser chamada se o statu quo ficar insustentável. Até o bom senso tem os seus limites.

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