Stress pré-eleitoral

Washington é uma boa torre de controlo eleitoral. É certo que não se vê campanha nas ruas, até porque a cidade é um baluarte democrata, o que pode parecer uma apreciação traiçoeira: há um país a mexer fora da capital e ninguém, honestamente, pode medir o pulso à campanha apurando o faro pelo que aqui vê. Mas isso não significa que Washington não permita aceder a outro tipo de análises impossíveis de obter se estivéssemos a percorrer o país. Uma delas resulta da sua natureza paroquial, de se chegar com mais ou menos facilidade a quase toda a gente relevante na política americana, trabalhe nos corredores da administração, na comunidade de think tanks ou nos media. Esta é a mais-valia de DC: medir a tensão política por dentro. Devo dizer-vos que a pulsação está acelerada, os nervos à flor da pele e a ansiedade a crescer. Não é para menos: Trump tem trabalhado bem a cumplicidade com os eleitores brancos da classe trabalhadora em estados onde têm uma palavra a dizer, como a Carolina do Norte ou o Wisconsin, e Clinton não tem outra estratégia que não a de aparecer rodeada de estrelas da política e do entretenimento, mascarando a sua notória falta de afirmação em campanha. Claro que tem a seu favor uma máquina partidária imprescindível à mobilização, lidera nos votos antecipados - importante entre afro-americanos na Carolina do Norte ou latinos na Florida - e pode beneficiar da dispersão interna entre republicanos. Mas o que faz desta eleição um momento de ansiedade extrema é a dificuldade em medir aquele eleitorado que não assume ir votar em Trump mas que na hora da verdade o fará. Esta mancha cinzenta é inquietante e traz uma tensão extra a quem não vê em Hillary qualquer rasgo que a faça descolar. Não é à toa que a Associação Americana de Psicologia diz que 52% dos adultos vivem em "stress eleitoralmente relacionado". Esta não é uma eleição igual às outras.

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