Sob bullying cruzado

Vai ser um dos Conselhos Europeus mais duros dos últimos anos. David Cameron vai tentar regatear pontos do acordo com a UE, alguns só à volta da semântica dos tratados, mas dificilmente levará troféus para Westminster. Ainda bem. Se Bruxelas ceder mais no nível de excecionalíssimo britânico abre um precedente incontrolável. Quem garante que outro Estado membro não irá procurar sozinho ou em grupo (como o de Visegrado) fazer o que Cameron tem feito nos últimos meses? Seria um autêntico deslaçar dos freios comunitários alcançados, já hoje sob bullying cruzado. O que Cameron está a fazer podia ser saudável para melhorar a subsidiariedade ou emagrecer o monstro regulatório comunitário. Podia, mas não é: apenas obedece ao critério do medo, do fechamento e do soberanismo anacrónico. Acontece que a Europa não vive dias normais e não sabe como lidar com tantos problemas. Para citar Donald Tusk, "o risco de desmembramento é real". E é mesmo. O brexit seria, além de desastroso para a economia e unidade do Reino Unido - a saída da Escócia seria contínua -, um precedente igualmente grave para a desistência de outros, um fator de continentalização geopolítica excessiva, uma machadada no aprofundamento do mercado único, na abertura ao livre-comércio multilateral (TTIP à cabeça), na credibilidade da defesa europeia (apesar de tudo, com 32 missões em três continentes desde o acordo de Saint-Malo, em 1998) e um salvo-conduto à putinização de muitos políticos europeus, com as consequências que já hoje testemunhamos. Basta ver o que os quatro de Visegrado, essa ingrata brigada do muro (o de 1989 e o que hoje querem erguer), querem à revelia de Bruxelas ou como alguns expressam ser pudor a saída da Grécia de Schengen depois de a saída do euro ter posto a jugular de Atenas a mil à hora. Alguém acredita que tudo isto caminha para um final feliz? Eu, cada vez menos.

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