Rua com eles

A escrita de um novo livro tem e vai continuar a levar-me às 28 capitais da UE ao longo deste decisivo ano. Depois da Holanda, temos eleições importantes na Bulgária, na França, na Alemanha e na República Checa, o pedido de saída do Reino Unido, efeitos simétricos dos resgates na Grécia e na Irlanda, manifestações na Roménia e inversões democráticas na Hungria e na Polónia, momentos independentistas em Espanha e incompatibilidades regionais acesas na Bélgica, perceções graves de insegurança no Báltico, instabilidade crónica em Itália, lados sombrios na Dinamarca e na Suécia, interesses pouco mediáticos em Malta, no Luxemburgo ou na Eslováquia, a Croácia e a Eslovénia a fugirem da tremedeira balcânica e o Chipre dividido enquanto vê a Turquia afastar-se fatalmente de Bruxelas. Mas não terá sido sempre em volta de constantes dúvidas existenciais que os europeus se foram integrando, numa cadência natural de ritmos nacionais e de alinhamentos forçados também pelo exterior? O nosso pior defeito tem sido o umbiguismo inebriante, perigoso etnocentrismo militante que nos tira perspectiva, relevância e influência. A melhor celebração que podemos fazer em Roma é evitar cavar este enredo. É verdade que a rocambolesca assinatura do Tratado de Roma teve no âmago a integração económica entre França e Alemanha Ocidental para cimentar uma paz improvável. Mas isso só foi possível porque os americanos se vincularam, como nunca antes, à segurança e estabilidade europeias. É por isto que a história dos últimos 60 anos não pode ser reduzida a uns lirismos romantizados sobre o "projeto europeu", o "sonho dos pais fundadores" ou "solidariedade europeia". Foi muito mais cru, sujo e político do que isso.

Entre a proposta de Ernest Bevin (1947) para se fundar uma aliança transatlântica e a assinatura do Tratado de Washington (1949), um menu de relutâncias dominou Washington, que queria evitar amarras permanentes com a defesa das democracias europeias. Nos anos seguintes, a Guerra da Coreia levou à dupla transformação da NATO, com a criação de uma organização militar permanente e a integração da Alemanha Ocidental, concluindo os EUA a estratégia de tornar inimigos recentes (mais Japão e Itália) em aliados de longa duração. Em 1956, Reino Unido e França decidiram invadir o Egito, em concertação com Israel, sem anteciparem a reação de Eisenhower, que, na véspera da sua reeleição, denunciou a ação unilateral dos dois aliados. A crise do Suez, que coincidiu com a intervenção soviética na Hungria, não levou o Reino Unido nem a França a abandonarem a NATO, mas expôs uma nova divisão ocidental, em que Londres reforçaria a "relação especial" com Washington e Paris consolidaria a aliança com a República Federal Alemã, acelerando a integração comunitária. Seis meses depois seria assinado o Tratado de Roma (1957), criando a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Agência Atómica Europeia (Euratom), dando início ao processo de integração política na Europa do pós-guerra.

A partir daí tivemos uma sucessão de autonomias estratégicas transatlânticas, com a divergência gaullista no interior da NATO, a ostpolitik alemã e a adesão do Reino Unido às Comunidades Europeias (1972). Mas é o fim da Guerra Fria, em particular o modo como se fez a reunificação alemã, que mostrou como NATO e a Comunidade Europeia cumpriam papéis complementares e decisivos, mesmo sob acusações de anacronismo que visavam a NATO e que, ignorantemente, perduram. Se, em 1949, a fundação da Aliança Atlântica tinha sido condição indispensável à fundação da República Federal Alemã e ao início do processo de integração comunitária, em 1989, a decisão de reunificar a Alemanha, sem pôr em causa a sua permanência na NATO e na Comunidade Europeia, confirmou o vínculo original criado entre a democracia alemã, a aliança ocidental e a integração europeia. Este é o momento fundador da UE que dura até hoje.

Podia continuar pelas guerras balcânicas e o bufo grito do "chegou a hora da Europa" para controlar essa sangria, pelas violentas divisões na guerra no Iraque, pelas receitas para a crise das dívidas soberanas, a oportunidade perdida do TTIP, as respostas ao revisionismo agressivo de Moscovo, a manutenção dos Balcãs no carril da integração, as formas de lidar com a putinização da Turquia, a coordenação dos fluxos migratórios e refugiados, a necessidade de ter uma influência decisiva mas diferente no Norte de África e Médio Oriente, ou de responder ao terrorismo com proporção e firmeza. Tudo isto não se faz certamente sem mínimos de unidade europeia, mas não se faz de todo sem um vínculo sério e estratégico aos EUA. O problema é que nenhum dos dois está hoje garantido e isso põe em causa um equilíbrio multilateral que tem beneficiado as partes. Deste lado, todos os esforços serão poucos para prolongar uma coesão mínima e eficaz.

Feita de altos e baixos, avanços e recuos, a integração europeia não pode ser vendida como uma ilha de fantasia, um oásis funcionalista, um projeto identitário reservado, uma "potência normativa" exemplar. Ou mesmo uma criação "pós-moderna", a qual tem invariavelmente esbarrado na inadaptação a um mundo que permanece moderno, perigoso e agressivamente concorrencial. O umbiguismo e a soberba europeias têm cegado os decisores, esvaziado a natureza política e até tática da integração e respondido mal às angústias de quem cá está ou de quem quer para cá vir. Porque as crises internas e os eventos exteriores são o sangue que corre nas veias da Europa, o que precisamos é de políticos corajosos com senso e perspetiva histórica, não de proclamadores asséticos com horário de trabalho. Por isso, rua com eles e viva a Europa.

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