Realidades paralelas

Ao contrário do que aconteceu em Portugal, as manifestações no pico da crise espanhola evoluíram pelo roteiro institucional e o Podemos é disso exemplo. Mesmo discordando da agenda, a verdade é que se estruturou, foi a jogo, disputou o espaço do PSOE e trouxe novos eleitores. O Ciudadanos é diferente. Partiu da Catalunha, tem estado no Parlamento regional e construiu uma narrativa contestatária sem precisar de radicalizar o discurso: tem o voto de antinacionalistas catalães, apresenta-se regenerador dos vícios do bipartidarismo, mas não põe em causa a UE, a NATO, a economia aberta e os serviços públicos. Infelizmente, não surgiu em Portugal caso semelhante capaz de ser pivô de soluções governativas, ou seja, as novidades espanholas não têm paralelo no nosso país. Já as tradicionais, tendo no conteúdo, não coincidem na forma. O PP tem o discurso do PSD-CDS: recebemos herança pesada, arrumámos a casa, merecemos voto de confiança. Mesmo sendo um arrumo frágil e com atribuição de culpas temporalmente restritas, chegou para ganhar e é provável que também chegue em Espanha. A diferença entre Rajoy e Passos é que um tem uma reserva de apoio chamada Ciudadanos e o outro esgotou-a na coligação pré-eleitoral. Já PSOE e PS, convergindo na restauração do assistencialismo estatal perante o declínio social atribuído às políticas de direita, têm opções pós-eleitorais distintas. Se Costa teve margem para moldar um governo de incidência parlamentar à esquerda, Sánchez não terá amplitude para lá do Podemos. Além disto, Sánchez não tem a experiência de Costa nem pontes calibradas à esquerda. Para ampliar o apoio, Sánchez precisaria do Ciudadanos, oficializando o seu estatuto de pivô, mas criando uma coligação de vontades opostas e desgaste rápido, o que favoreceria, a breve prazo, o PP. Foi a pensar neste quadro paralelo que Passos rompeu com o CDS.

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