Que América é esta?

A primeira semana de Trump na Casa Branca provou existirem mais verdades na política americana do que pensamos. Primeira, o nacionalismo beligerante do candidato Trump é o guião do presidente Trump. Segunda, o narcisismo infantil e autoritário do candidato Trump é a matriz de um presidencialismo agressivo, centralista e sectário. Terceira, a ambiguidade permanente da mensagem do candidato Trump continua a ser o roteiro da prática administrativa da sua presidência e da sua postura externa. O maior drama quando olhamos para isto com alguma frieza não está na tentação de descodificar à pressa um possível óbito da ordem internacional pós-1945, ou melhor, pós-1991. Parece-me cedo para o fazermos, embora os sinais não sejam animadores. O grande problema desta fase é o de não conseguirmos identificar claramente na história recente da América tantos sinais contraditórios vindos do interior de uma presidência tão prepotente, disruptiva e inexperiente. Pior do que o fim de uma era é não sabermos para onde estamos a ir.

Dou o exemplo das nomeações para o Pentágono e para o Departamento de Estado. O general Mattis colocou a NATO como pilar inegociável das alianças americanas, e vai protagonizar a primeira visita ao exterior de um membro desta administração à Coreia do Sul e ao Japão, acalmando os aliados asiáticos que tremeram com as tiradas de Trump na campanha. Além disso, Mattis foi claro nas audições no Senado ao considerar o regime russo uma ameaça à segurança dos EUA, divergindo também aqui de Trump. No caso do secretário de Estado, cujo currículo não o recomenda para o cargo, Rex Tillerson afirmou também no Senado que era "justo" dizer que Moscovo esteve na origem dos ciberataques ao partido democrata e que os aliados da NATO "têm razão em estar alarmados" perante uma Rússia ressurgente. Ao mesmo tempo, Trump disse ao jornal alemão Bild que a NATO está "obsoleta" mas que era "muito importante para ele", uma frase que podia ter sido dita por Putin: o presidente russo também despreza a Aliança, mas não pode passar sem ela.

Vejamos, ainda, a postura sobre tratados comerciais. Trump quer - unilateralmente e sem respeito pelo Congresso e pelas organizações interessadas na matéria - rever, rasgar e implodir muito do que está assinado e até ratificado. Mas também quer celebrar acordos bilaterais, naturalmente sempre mais vantajosos para os EUA, numa lógica que o afasta do terreno multilateral mas não necessariamente das relações comerciais globais. Quer isto dizer que é um protecionista empedernido? Ou que a ambiguidade serve apenas para confundir o mundo sobre o rumo da administração? O que é certo é que todos os olhos estão postos em Trump, e isso conforta-o: ser ele a ditar as regras, a manipular a verdade, a agitar as hostes. Não há memória de uma administração que balance assim entre uma permanente ambiguidade discursiva quanto ao seu posicionamento externo e uma tamanha dose de concentração de poder, arbitrariedade processual, desvalorização institucional e autoritarismo ideológico.

O sistema americano está feito para travar a ascensão deste tipo de exercício do poder, mas as instituições, tal como a Constituição, têm sido exageradamente celebradas como mecanismos infalíveis de pluralismo e respeito inviolável pela separação de poderes. Pois bem: todas estão nesta altura à prova, tal como os congressistas republicanos que não se reveem em Trump. A recusa de uma afirmação pode gerar um crescimento do antiamericanismo à escala global na exata medida do antitrumpismo, o que seria um foco incontrolável de insegurança para os americanos. Pior só mesmo que, a par disso, o iliberalismo interno abra as brechas por onde costumam entrar tiranetes, terroristas e demais inimigos da democracia.

Investigador universitário

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