Problemas a Leste

A Polónia curvou este domingo à direita. Os anos centristas da Plataforma Cívica já tinham sofrido um revés nas presidenciais de maio, com a vitória do nacionalista Duda, do PiS, expondo uma clara divisão este-oeste na distribuição dos votos. Esse momento nacionalista reforçou-se nestas legislativas, com implicações no tom, modo e alcance da política europeia da Polónia. Os anos de Donald Tusk e Ewa Kopacz foram economicamente capazes de contornar a crise europeia ao mesmo tempo que aproximaram Varsóvia do centro de gravidade do poder comunitário. Mas a verdade é que o Leste polaco não acompanhou as cifras ocidentais (não é caso único na Europa) e boa parte dos seus eleitores não vislumbraram benefícios na proximidade a Bruxelas e aos seus generosos fundos. A grande crítica sobre a Plataforma é a de se ter deixado identificar em demasia como uma elite social e económica deslumbrada com a política palaciana europeia, na qual encaixava a aliança privilegiada com Paris e Berlim e menos com pequenos parceiros regionais. A nomeação de Tusk para presidente do Conselho Europeu coroou essa interpretação. Agora que presidente e governo formam um bloco nacionalista coeso, quais serão as implicações desta viragem. Internamente, mais conservadorismo social e assistencialismo estatal. O governo de Beata Szydlo (o nome é todo um programa) insistirá na "repolonização" da banca, confrontando investidores estrangeiros como, por exemplo, o Millennium bcp. E essa posição de confronto vai estender-se à UE. O PiS vai extremar o regionalismo para equilibrar o até aqui eixo preferencial Paris-Berlim. Se a NATO é sagrada, até pelo medo de Moscovo, o fascínio pela liderança de Orbán indicia uma projeção de Varsóvia entre Leste, Báltico e Balcãs, como pivô geográfico de uma confrontação nacionalista e intolerante permanentes. Não nos faltava mais nada.

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Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

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