Pretexto sagrado

Se a Arábia Saudita quisesse melhorar a relação com o Irão evitava colocar no poço da morte um carismático clérigo xiita junto a uns quantos sunitas acusados de terrorismo. Se o Irão quisesse esfriar a rivalidade com a Arábia Saudita tinha evitado assumir-se como fiel protetor desse clérigo saudita e enviar a Riade declarações vingativas. A verdade é que nenhum dos lados procura qualquer apaziguamento, cooperação institucional ou tréguas nas várias guerras regionais por procuração. O que a Casa Saud mais quer é provar a sua força através de uma total inflexibilidade com narrativas subversivas dentro do seu território, independentemente do seu cunho violento (a do clérigo xiita Nimr al--Nimr não era). O que o novo monarca saudita procura é consolidar a sua posição interna e de farol do sunismo absoluto no Médio Oriente, não dando espaço a outras interpretações que desviem o centro da gravidade teológica (e política) de Riade. Mas para que estes dois objetivos prossigam, a Arábia Saudita precisa de garantir três dinâmicas cruciais. Primeiro, recuperar a centralidade na geopolítica energética perdida recentemente para a revolução americana do gás e do petróleo de xisto. Segundo, defender as coutadas de poder inviabilizando tréguas ou negociações de paz na Síria, no Iémen ou no Bahrein. Terceiro, pôr o Irão debaixo do fogo total sunita, obrigando-o a responder errática e nervosamente, deixando Washington num dilema: manter a aliança com Riade ou salvaguardar os passos de aproximação ao Irão para monitorizar de perto a sua ascensão regional. Neste quadro, Israel, Turquia, Líbano, Egito e Iraque vão ser obrigados a desenhar alinhamentos flutuantes ou reforçar trincheiras. É provável que tudo piore, a começar na Síria e a acabar no Iémen. A morte de Nimr foi apenas o pretexto sagrado para propagar a sangrenta guerra dentro do Islão.

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Anselmo Borges

Globalização e ética global

1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.