Portugal e o brexit

A relação com a UE tem estado sempre no centro da política britânica desde a adesão em 1973. Nenhum líder trabalhista ou conservador deixou de fazer campanha sobre os malefícios e virtudes da integração europeia, o que se alterou foi a força da narrativa popular anti-Bruxelas num tempo em que a Europa voltou a confrontar-se com a mistura explosiva entre anemia económica, desemprego, intolerância e populismo. David Cameron sabe que podia negociar os pontos de honra britânicos nas capitais europeias sem recorrer a um referendo in-out marcado para 2017. Podia, mas não era a mesma coisa.

Desta forma, pode tirar o máximo partido negocial do cenário de desagregação comunitária inspirado na possível saída do Reino Unido. Tática e ideologicamente faz sentido, mas o risco mais uma vez é grande. Por duas razões: primeiro, dificilmente existem alternativas económicas e estratégicas à UE, o que releva a hecatombe do brexit na economia real britânica e nalguns importantes parceiros (Irlanda, França, Alemanha, Bélgica e Portugal); segundo, porque acrescenta um atrito potencialmente mimetizado por outros numa altura em que os nacionalismos estão ao virar da esquina.

Portugal devia acompanhar isto de outra maneira se tivesse uma política europeia digna do nome e pautasse a sua voz por decibéis audíveis no concerto comunitário. O Reino Unido é o nosso quarto maior cliente, o nosso sexto principal fornecedor, está no top 5 do nosso turismo e temos 2400 empresas a exportar para lá. É um aliado atlantista, pró-TTIP, um dos grandes financiadores do orçamento comunitário, uma potência nuclear, a quinta economia global, um baluarte financeiro, da democracia liberal e do mercado único. A UE, sem o Reino Unido, é um objeto político ainda mais indecifrável e ficará mais fraca, desagregada e ingovernável. Não há como escapar ao pessimismo.

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