Por uma sociedade aberta

Fiz questão de ir ontem a Trafalgar homenagear Jo Cox, um tributo emocionado que reuniu milhares de pessoas em uníssono para celebrar os valores da tolerância, liberdade e o percurso de vida da deputada trabalhista que ontem celebraria 42 anos. Ouvi o testemunho do marido e da irmã, as palavras fortes de Malala Yousafzai, a comunhão dos vários líderes religiosos presentes no Reino Unido e o tributo de um representante dos White Helmets sírios, uma organização a quem a deputada devotou especial atenção e que já merecia o Nobel da Paz. Devo dizer que nunca tinha ouvido falar de Jo Cox até à fatídica tarde em que foi assassinada. Quem perdeu fui eu. Jo Cox representou tudo aquilo que deve nortear a missão de um parlamentar: estar disponível para os seus eleitores e bater-se por causas que façam a diferença na sua circunscrição, como os cuidados de saúde infantil, o acesso à educação, a igualdade de oportunidades, a tolerância no acolhimento humanitário, o respeito pelas comunidades imigrantes e o compromisso inegociável por uma comunidade aberta e livre. E isto é tanto nesta Europa de rancores à flor da pele em que novamente mergulhámos. Há muito para criticar na UE e para censurar os termos em que ambos os lados esgrimiram posições nesta campanha. Há, até, razões sérias entre os brexiters que devem merecer total atenção por quem quer reformar uma União descapitalizada de benignidade política. Mas o momento pede sangue-frio. Abrir a caixa da desintegração hoje é um caminho sem farol e planos de contingência, sem almofada económica e gravitas política capaz de conter os danos sociais em cada Estado membro. O tributo a Jo Cox foi, por isso, muito mais do que a homenagem cínica a uma parlamentar em ascensão: foi o tributo sentido em defesa de uma Europa onde quero ver crescer os meus filhos e um grito de oposição a outra onde não quero estar.

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