Políticos no arame

O "apagão" de Angela Merkel nas negociações com o Reino Unido mostrou bem os termos deste debate: manter o país na UE justificou o quadro de cedências; o Reino Unido já era dono e senhor de um excecionalismo jurídico e político nos tratados; a partir do momento em que estas duas premissas são consensuais em Berlim e em Paris, o brexit passou a ser sobretudo um problema interno para David Cameron. O raciocínio deveu tudo ao pragmatismo e às prioridades de Hollande e de Merkel (ambos com eleições para o ano) focadas na caótica gestão dos refugiados, na falta de controlo sobre alguns países do Leste e na imprescindível coordenação com a Turquia, mas não evitou mais uma triste imagem desta UE fatiada a bel-prazer pelos seus membros e que num momento existencial abriu a porta a que outros sigam futuramente o exemplo de Cameron. Não estamos só na época da renacionalização política da Europa, mas do regresso à narrativa identitária como mecanismo manipulador da restituição de soberania. E sobre o seu abuso, a verdade é que já há um descontrolo generalizado. Mas se no plano comunitário o cenário é imprevisível, no plano interno Cameron também não garantiu um seguro de vida. Desde logo, porque o alcançado não contenta o Cabinet, o partido e os eleitores, o que pode, em última análise, obrigá-lo a uma remodelação forçada e a precisar dos préstimos de figuras trabalhistas de topo (como no referendo escocês), já que Corbyn é um líder moribundo. Depois, por ter uma disputa com Boris Johnson demasiado cedo na legislatura, muito mais sobre o futuro do partido do que sobre a UE. E pode perdê-la. Por fim, se não ganhar o referendo, a City e a economia real vão sofrer e com isso a desejada sucessão para George Osborne terá os dias contados. Podemos acusar Cameron de tudo, menos de não gostar de fazer política no arame.

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