Perseguições

As purgas de Erdogan são não apenas recorrentes como convergem no seu objetivo maior: coroar-se rei e senhor da Turquia na celebração do centenário da República fundada por Atatürk. Se, em 2023, o aparelho político, empresarial, informativo, securitário e militar não tiver mais brechas capazes de orquestrar golpes amadores como o de há dias, então Erdogan terá refundado a República à sua imagem. Ficar surpreendido com o estilo e a arte desta purga é como abrir a boca de espanto com o racismo na América ou as cavalgadas de Putin na Ucrânia. Estava lá tudo: bastou explorar a janela aberta.

A questão fundamental não está, por isso, nos factos, mas na escolha deste rumo. Vale a pena recuar a março de 2003, quando Erdogan chega à chefia do governo. Estávamos na ressaca do 11 de Setembro, com a guerra do Afeganistão em curso e no mês da invasão do Iraque. Ter um país da NATO capaz de instituir uma "democracia islâmica progressista" focada na adesão à UE era o melhor modelo num Grande Médio Oriente que sobretudo Washington queria ver revolucionado. A performance económica da Turquia nos anos seguintes e a estabilidade política que davam as maiorias do AKP, entusiasmaram um Ocidente que também ia desvalorizando os atropelos às liberdades e ao desrespeito pela separação de poderes.

A Turquia era essencial à estratégia "fora de área" da NATO, membro do G20, e uma democracia islâmica imponente. Até que o caos no Iraque passou para a Síria e o desastre das "primaveras árabes" expôs os limites do triunfalismo de Erdogan. A rutura com Gulen, em 2013, encerrou uma década de glória, no pico dos protestos em Istambul e Ancara. Sem horizonte de adesão à UE e cercada por insegurança, a paranóia tomou conta do regime. Desvalorizar a inversão democrática da Turquia foi um erro estratégico do Ocidente e uma enorme oportunidade perdida. O resultado está à vista.

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