Perigo à solta

Parece que a política externa americana está reduzida às gafes, aos trejeitos e às várias situações embaraçosas que Donald Trump protagonizou neste primeiro périplo ao exterior. Claro que elas têm um impacto na forma como os aliados e os inimigos olham para a Casa Branca, reduzindo a fanicos a confiança dos primeiros, expondo a anarquia estratégica aos olhos dos segundos, e misturando tudo isto numa poção mágica que só dá mais força ao terrorismo. Se Telavive e Londres não confiam em Washington para partilhar informação, piorando a qualidade e o alcance do seu circuito, que pensarão os milhares de bombistas que andam aí à solta pela Europa? Exatamente: que esta é a melhor época para atacar. O comportamento do presidente Trump é, por isso, um motivo extra de insegurança transatlântica.

Comecemos pelo festim do sabre em Riade. Não há memória de um presidente americano escolher um país do Médio Oriente para a sua primeira viagem oficial ao estrangeiro. Desde que os presidentes se estrearam com viagens desse estatuto (Ted Roosevelt em 1906), que 12 o fizeram ao Canadá ou ao México (incluindo quatro dos últimos cinco presidentes), quatro viajaram à Europa e dois à América Latina. Escolher o Médio Oriente e em particular a Arábia Saudita tem, por isso, uma leitura muito para lá das trumpalhadas presidenciais. Dir-me-ão que todos os presidentes têm ido ao beija-mão na Casa Faisal. É verdade. Mas nenhum fez do reino o seu primeiro destino. Dir-me-ão, com razão, que Riade tem sido um dos pilares das alianças americanas no Médio Oriente e isso implica constantes manifestações de carinho, como os recorrentes milionários contratos militares. Também é verdade. Mas não são os termos da relação bilateral que são novos, é o timing e o modo em que a escolha do destino é assumida.

Há, sobre isto, dois pontos importantes. O primeiro é a administração Trump querer fazer do Irão um pária no Médio Oriente. Cortejar Riade, as monarquias do Golfo e elogiar Erdogan significa fechar novamente o círculo sunita da região, depois da tentativa de abertura ao Irão nos anos de Obama. Isto é particularmente agressivo porque Trump faz coincidir a sua chegada a Riade com o anúncio da reeleição de Rouhani no Irão, vitória que reforçou o seu esforço de distensão diplomática internacional, desanuviamento económico por via do desbloqueio das sanções, e aumento da confiança externa sobre o programa nuclear. Nesta eleição, estiveram com Rouhani os mais jovens, as mulheres e a classe média, o que em condições normais deveria merecer um elogio da Casa Branca. Só que não vivemos tempos normais e a lógica de Trump é só uma: destruir as pontes com Teerão, com todo o potencial da sua sociedade, e com um presidente cujo perfil pode ser difícil de encontrar novamente. Se houvesse o mínimo de perspetiva estratégica em Washington, como me parece ter sido ensaiado no mandato de Obama, os EUA estariam a reformular as suas alianças no Médio Oriente através de um eixo que incluiria um juízo menos seguidista dos governos em Telavive (mas não a Israel), uma aproximação cuidada a Teerão, alguma frieza face a Ancara e ao Cairo, e um distanciamento progressivo com Riade.

Mais: se quisessem ser preponderantes na Síria e no Iémen, os EUA precisariam sempre de influenciar em termos minimamente próximos o Irão e a Arábia Saudita, nunca ficar reféns de um deles. Para continuar a ter alguma margem de mediação entre israelitas e palestinianos, os EUA precisariam de mostrar a ambos que a sua gravitas regional é magnânima e não enclausurada num só grande ator regional. E, para ter outra eficácia no combate ao terrorismo (físico e ideológico), os EUA teriam de deixar de pactuar com a "ajuda ao desenvolvimento" sunita encabeçada por Riade, e que tem produzido mais bombistas suicidas por metro quadrado do que qualquer recruta instantânea do ISIS. Só abrindo o regime iraniano às responsabilidades internacionais é que se promovem reformas no seu interior. Este potencial, pura e simplesmente, não existe na Arábia Saudita. Riade é um caso perdido para a modernidade política.

O segundo ponto diz-nos que Trump não tem qualquer intenção de melhorar a influência americana no Médio Oriente e na Europa. Primeiro, ao sinalizar a dependência de Riade. Segundo, ao tentar brilhar em Telavive sem retaguarda de peso nas reuniões, dando a Israel uma imagem imatura do poder geradora de desconfiança. Não há memória de um conselheiro de segurança nacional ficar à margem das reuniões de um presidente americano com um líder estrangeiro sobre matérias sensíveis de política externa. McCmaster ficou fora da reunião entre Trump e Netanyahu, ao contrário de Jared Kushner, genro de Trump, sem qualquer qualificação na matéria. O que Trump trouxe de Telavive só desprotegeu os EUA na relação bilateral.

Aliás, o mesmo McMaster tinha passado à imprensa o compromisso de Trump com a cláusula de defesa coletiva da NATO, reforçada vezes sem conta em todas as cimeiras, mesmo que vários presidentes americanos tenham feito reparos aos investimentos europeus na Aliança. Trump mandou o artigo V para as calendas, portando-se em Bruxelas como um contabilista de quinta categoria, sem o mínimo de conhecimento da NATO, da sua lógica de funcionamento e do esforço dos aliados em múltiplas vertentes para lá das missões militares. O problema de Trump é duplo: falta-lhe gente capaz a assessorá-lo e confunde meios militares com uma estratégia antiterrorista de sucesso. Pior do que ter um presidente americano indigente, é ter alguém deliberadamente a delapidar a hegemonia benigna da América. Continuamos a precisar dela.

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