Paris, parte II

Reivindicado e com suspeitos identificados, estamos ainda no plano das interpretações. A primeira faz coincidir modo, tempo e sítio na lógica atual do jihadismo europeu: ataques sequenciais feitos por radicais de passaporte europeu numa capital da UE e num contexto de extrema aproximação à detenção pela polícia belga do cabecilha dos atentados de Paris. A segunda deriva dessa premissa: os atentados de Bruxelas acabam por ser a segunda parte dos atentados de Paris. A razão parece clara, afinal de contas o círculo de terroristas em redor dos dois momentos é o mesmo e o seu trânsito realizado entre as duas capitais, quer como escapatória quer como preparação. Nestes quatro meses que separam Paris de Bruxelas o mundo deu-se conta de duas realidades. Uma, que a cadência dos ataques nas nossas capitais está cada vez mais acelerada, apesar de no mortífero ano de 2015 terem morrido às mãos do terrorismo islâmico 16 vezes mais civis no Norte de África, Médio Oriente e Ásia Central do que na Europa. A outra, que a Bélgica é um Estado disfuncional, o que agrava a prevenção e o arco de respostas à radicalização islâmica em curso na Europa. É verdade, algumas das características belgas são comuns a outros países europeus com importantes comunidades muçulmanas (mal) integradas, cuja guetização inibe o Estado de direito de lá entrar. Mas há que reconhecer o paradoxo que é um país próspero e uma região politicamente simbólica como Bruxelas terem o maior número de jihadistas nas fileiras do ISIS entre todos os países da UE em rácio por cada milhão de habitante. Mais: que o contingente belga é o oitavo mais representativo entre todos os grupos estrangeiros na Síria, atrás da Jordânia, Tunísia, Arábia Saudita, Bósnia, Kosovo, Turquemenistão e Albânia. Quer isto dizer que o problema está todo no imã sírio? Não. Quer dizer que está também no nosso quintal.

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