"Para além da troika"

Desde que a crise estalou na União Europeia que duas ilusões se impuseram. Uma diz que maiorias de um só partido dão melhores condições de governabilidade, estabilidade e confiança aos mercados. A outra afirma que se os países sob assistência da troika seguirem o seu plano de salvação entrarão finalmente nos eixos. No primeiro caso, só há hoje três governos de maioria de um só partido na UE e não consta que as coligações na Alemanha, na Áustria, no Luxemburgo, na Suécia, na Dinamarca ou na Irlanda os tenham conduzido ao abismo ou ao lixo pelas agências de rating. Aliás, se há momento em que a Europa precisa de afinar compromissos entre partidos é este, pela demagogia à solta e pelos ajustamentos que as sociedades estão a passar na economia ou na integração de imigrantes. No segundo caso, estamos longe de validar o realismo dos programas de assistência, quer pela Grécia (que já vai no terceiro) quer por Portugal, que ao ter concluído o seu não garantiu sustentabilidade na dívida, no investimento estrangeiro, na competitividade fiscal, afugentou as dúvidas dos mercados ou travou as patifarias na banca. A Irlanda é a que melhor faz a ponte entre as duas ilusões. Com coligação direita-trabalhistas nestes anos de troika, saiu do seu chapéu com resultados impressionantes: desemprego reduzido a metade, PIB a crescer acima do chinês, défice a 1,7% e 96% de dívida pública (120% em 2012). Acontece que isto aconteceu não por causa da troika mas (agora sim) "para além da troika": mão-de-obra qualificada, baixos impostos às empresas, exposição às economias britânica e americana, economia aberta e centrada em clusters tecnológicos e exportações competitivas para fora da zona euro. Por outras palavras, coligações calibradas são preferíveis ao pensamento único e cada país precisa de ter condições endógenas ao sucesso e não esperar por receitas mágicas. É que nem elas curam nem fazem milagres.

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