Para a frente, Macron

É o eterno dilema do cronista na hora de escolher o tema: hipóteses variadas e relevância equiparada. Entre a tragédia venezuelana, a revisão da estratégia americana para o Irão, o anúncio das eleições antecipadas no Reino Unido e a oficialização da Turquia erdogânica, as presidenciais francesas levaram a melhor. É a eleição europeia mais importante das últimas décadas, teve uma campanha que deslaçou, de modo distinto, os dois grandes partidos e pilares da integração europeia, e o resultado desta volta terá um profundo impacto noutras eleições europeias e no destino da UE. Ou seja, é um momento decisivo para Portugal.

A campanha teve várias particularidades, até mesmo históricas. Não há memória de qualquer dos candidatos dos dois principais partidos poder não chegar à segunda volta. É, por isso, importante olhar para a forma como François Fillon e Benoît Hamon foram atingidos pela dinâmica de campanha. Ambos foram eleitos em primárias, mas nenhum foi aclamado nem capaz de fazer pontes com os derrotados. A ala direita do PS juntou-se a Emmanuel Macron e a esquerda, que à partida seria fiel a Hamon, tem nas últimas semanas dado élan a Jean-Luc Mélenchon. Com os socialistas cercados, a principal notícia desta campanha está aqui: o PS francês está à beira de um colapso.

O caso de Fillon é um pouco distinto, porque não sofreu o mesmo grau de deserção dos seus adversários - embora não seja depositário de grande entusiasmo -, nem tão--pouco representou uma fação ideológica dentro dos Republicanos. Fillon é um clássico conservador nos costumes, liberal na economia e com uma base na França rural que lhe garante sustentação nas sondagens. O problema é que a investigação judicial que caiu sobre si trocou-lhe as voltas e a sua suposta caminhada triunfal para o Eliseu acantonou-se. Mesmo a ascensão apoteótica de Macron foi inicialmente bem acolhida pela direita gaullista: era politicamente inexperiente para não ameaçar Fillon e suficientemente ao centro para partir os socialistas em cacos. Acontece que só a segunda parte desta tese se verificou e os franceses parecem não validar a primeira. Há razões para isso.

A primeira é que a novidade é apetecível aos eleitores um pouco por todo o lado. E não é necessariamente a novidade bizarra, que se apresenta sem guião, manipula a verdade ou a mentira e puxa de galões antissistémicos (como Trump). Há também espaço para a novidade em sentido oposto: poucos anos de experiência política de primeira linha, discurso encadeado, programa cosmopolita, percurso pessoal menos convencional mas exposto sem medo. Macron tem provado que assim é, tal como Jesse Klaver, o líder dos Verdes holandeses, o fez nas recentes legislativas, numa fase inicial Matteo Renzi em Itália, e de certa forma Albert Rivera em Espanha. O que talvez os eleitores não queiram é uma falsa novidade dissimulada de jovialidade: além de Hamon fazer em breve 50 anos, pouco se conhece da sua vida para além de ter intercalado cargos partidários com governamentais desde que liderou a juventude socialista. Claro que esta não é a única razão para o seu descalabro e o mesmo trajeto pode ser aplicado a outros, mas quando o cerco é feito pelo cosmopolitismo de Macron e o radicalismo de Mélenchon, que diferença determinante pode alguém como Hamon apresentar? Não é só de narrativas ou de agendas focadas que se cativam eleitores: o perfil e a identidade distinta que cada candidato transmite tem cada vez mais espaço na cumplicidade com os indecisos, os zangados ou os desmotivados. Hamon foi o segundo grande erro consecutivo cometido pelo PS depois de François Hollande.

A segunda razão é que Macron não tem sido nesta campanha apenas um mero fenómeno mediático, telegénico, carismático e um choque geracional numa França politicamente envelhecida. Ele tem sido frontal e corajoso na afirmação de uma agenda progressivamente articulada e assente nos princípios da sociedade aberta, nos méritos da integração europeia, da relação com Berlim, do comércio livre, da captação de investimento, da absorção de cientistas estrangeiros, da modernização da pesada máquina do Estado, das reformas laborais, da moeda única, da firmeza contra Moscovo, das forças armadas, de uma estratégia contra as alterações climáticas. E tem sido seguido com entusiasmo e endossado por muitos como a solução necessária para a França. e a única capaz de esmagar o radicalismo na segunda volta. Até pode ser que assim seja, mas Macron deve estar ciente de que as sondagens também apontam para que a fidelidade dos que se dizem seus eleitores seja quase metade da canalizada pelos que assumem ir votar em Le Pen ou em Fillon. A existir plasticidade no campo de Macron, ela pode estar mais na sua multidão do que nele próprio.

Sobra o perigo. As sondagens mostram que 40% dos eleitores preferem votar, num momento absolutamente decisivo para o futuro de França e da Europa, em dois candidatos que têm, respetivamente, Hugo Chávez e Vladimir Putin como modelos. Mélenchon e Le Pen são duas faces de uma moeda entranhada de ferrugem, com agendas destrutivas sobre tudo e todos, amplificando um cardápio de angústias sociais semelhantes sem nenhuma razoabilidade nos caminhos propostos. Tornam o Estado totalitário a vida das pessoas, criando uma ilusão de proteção perpétua. Rasgam alianças e cooperações atirando o país no abismo. Prometem o céu sabendo que é o inferno que lhes baterá à porta. Ameaçam porque sim, berram porque podem. 40% dos franceses estão prestes a cair no engodo. Para a frente, Macron.

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