Os maus espíritos

Hillary Clinton fechou as contas das primárias, mas o percurso foi mais sinuoso do que pensou e o desgaste ainda está por medir. Ao contrário de Trump, Hillary não é uma novidade política nem tem propensão para o disparate, muito apreciado nestes tempos. A moderação que emprega no discurso e a experiência acumulada em Washington não são atributos apreciados por muitos americanos e a tentação de ir ao seu encontro anda à solta. Só que ir por aí seria uma capitulação: perdia imediatamente gravitas em áreas como os direitos das mulheres, a imigração, a lei das armas, a saúde ou a diplomacia, e validaria a agenda Sanders que passou meses a contestar. Do que Clinton precisa agora é de estabilizar a coligação de eleitores e afinar uma agenda que exponha o perigo de eleger Trump. Para isso precisa de encarrilar três dinâmicas. A primeira resulta do encontro entre Obama e Sanders previsto para hoje na Casa Branca. Os termos do apoio dado por Obama e a tentativa do presidente em influenciar Sanders para que este atire a toalha ao chão e permita que a convenção de Filadélfia seja um momento de união podem congelar os debates expostos nestas primárias. A segunda dinâmica resulta destes dois hipotéticos apoios e ajudará a acalmar o ímpeto antiestablishment dos eleitores de Sanders. É fundamental que a potencial abstenção de muitos seja invertida por um discurso galvanizador e positivo, sem estar permanentemente enredado no negativismo anti-Trump, e que dê respostas sérias às disfuncionalidades do sistema (político, económico e social). Por fim, Hillary precisa de esclarecer rapidamente o caso do uso indevido do seu e-mail privado quando era secretária de Estado, evitando tornar-se tema central de campanha e prolongue a desconfiança com que muitos a olham. Os maus espíritos têm de estar apenas concentrados em Trump.

Investigador universitário

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