Os limites do palhacismo

Como em qualquer referendo, a questão central vai ficando de lado para dar lugar a uma disputa lateral. Deste ponto de vista, a consulta pela manutenção ou saída do Reino Unido da UE não desilude os espíritos mais vampirescos: há muito que se tornou uma pura e dura luta pela chefia do partido conservador, ou seja, do país. Na prática é isto que está em causa. David Cameron, que tem feito tudo desde 2010 para corroer a UE de moderação, coesão e sensatez, assumiu só depois de reeleito um súbito amor pela pertença comunitária, certamente tocado pelo empresariado mais desgostoso com os incomportáveis custos do brexit. Contudo, se perder o referendo, não lhe resta senão pôr o lugar à disposição, tal como provavelmente o teria feito se tivesse perdido o referendo escocês. Já aqui o disse, Cameron gosta de paradas altas e não se tem saído mal (Escócia, reeleição, acordo com a UE), mas se perder tem de tirar consequências. É aqui que entra Boris Johnson, que entre uma mão-cheia de argumentos mentirosos, distorção de factos e uma total falta de visão sobre o decisivo momento em que vive a Europa assumiu a ala UKIP dos conservadores, embrulhou-a num carisma desbragado para lá do politica-mente incorreto e abanou a incomparável cabeleira loira: Cameron, perdes e o partido é meu. O grande problema de Boris Johnson foi ter largado o jornalismo precocemente. A sua escrita era corrosiva e implacável, o seu traço sem concessões à liberdade e à polémica, o seu jeito destravado, desbocado e subversivo. Essa era a sua graça. O pior é quando os engraçados acham que podem ser bons políticos, ou, ainda pior, políticos salvadores de um país em geografia a atravessar momento existencial. Boris pode ter em Churchill um ídolo, mas duvido que se o velho Winston fosse hoje vivo não desse umas bengaladas na cabeça de BoJo.

Investigador universitário

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