Os limites da América

Há dois anos assisti em Washington a um briefing da poderosa NRA. Com mais de cinco milhões de associados, a organização mais antiga na defesa e treino do uso de armas nos EUA é vital a muitos congressistas republicanos. Na altura, reforcei uma ideia que mantenho: o endeusamento da Constituição americana - neste caso da Segunda Emenda - consegue cristalizar o sistema político tornando normal a matança às mãos da proliferação da venda de armas e do acesso livre por indivíduos mentalmente perturbados. A Constituição americana tem imensas virtudes mas deixa de fazer sentido quando resultado de um artigo de 1791 legitima um quadro de selvajaria social. O que é histórico deve ficar entregue à história. Em 2015, houve praticamente um ataque por dia nos EUA onde quatro ou mais pessoas foram mortas num só tiroteio. No total, mais de trinta mil americanos morreram, sendo a violência com armas a primeira causa de morte entre os jovens afro-americanos. Mais: morrem onze vezes mais mulheres nos EUA assassinadas com armas do que em qualquer outro país rico do mundo. O que Obama esta semana propôs está, pois, na linha do que deve ser feito, mas aquém do que um político que se comove com a tragédia podia trazer ao debate. Não só por estar livre de constrangimentos eleitorais, ter margem para endurecer a legislação e porque a grande coligação de eleitores democratas é apoiante de restrições ao uso e venda de armas como direito inalienável. Por fim, porque Obama acredita mesmo que as coisas se descontrolaram. Por isso podia ter ido mais longe: encostar a NRA aos candidatos republicanos, afetar mais recursos à monitorização dos compradores online e dos casos clínicos, punir com mais ênfase quem contorna a lei, chegar mesmo ao confisco se for caso disso. A América não está só a mostrar os seus limites no exterior, está também a revelá-los em casa.

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