Os fundamentais

Quatro fatores contribuíram para o adiamento das negociações sobre a Síria, marcada para ontem em Genebra. O primeiro é a divergência entre quem deve ou não representar a oposição a Assad. Como sabemos desde o início da guerra, já lá vão quase cinco anos, a competição dentro da oposição sunita tem sido um dos trunfos da manutenção do regime e do crescimento do ISIS. Sem uma agenda comum, liderança e estrutura militar coesa, os vários grupos permanecem apoiados por atores externos também eles com interesses particulares. À medida que Assad foi ficando, parte desses grupos radicalizou-se e muitos passaram à órbita da Al-Qaeda e do ISIS. O segundo fator é a defesa de alguns, como a Rússia, da inclusão nas negociações de grupos curdos, absolutamente impensável para a Turquia. O terceiro é a clivagem de ódio entre o Irão e a Arábia Saudita, acicatada com a execução do clérigo xiita por Riade. Sem iranianos e sauditas a contribuírem para algum desanuviamento do conflito, é impossível que se sentem à mesa representantes do regime e da oposição minimamente capazes de tornar um acordo num roteiro exequível. Nenhum se prestará a isso nem negociará qualquer cessar-fogo ou governo de transição, com ou sem Assad. O quarto fator é exatamente este: não há entendimento sobre o futuro de Assad. O Irão e a Rússia permanecem ao lado do regime, embora não excluam encontrar uma figura mais consensual se isso mantiver os seus interesses intactos e for um fator de eliminação progressiva do ISIS. Arábia Saudita, Qatar e Turquia continuam irredutíveis na defesa da mudança de regime. Entre estes dois blocos, EUA e alguns países europeus procuram um meio termo capaz de operacionalizar um cessar-fogo e tornar mais eficaz a frente anti-ISIS. Vale a pena lembrar que Washington está há 18 meses a bombardear o ISIS com os resultados que se conhecem.

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À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

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João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

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Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?